O último dia

De acordo com uma não muito conhecida lenda atribuída a indeterminada tribo que teria sido extinta há quase mil anos nos cafundós da Amazônia peruana, o fim do mundo, então já em curso, seria consumado abruptamente em um dia como outro qualquer, perdido no turbilhão dos meses que se repetem no calendário circular de contagem não tão diferente do nosso, que de janeiro a janeiro ou perde ou ganha alguns minutos que se vão tornando dias, como o 29 dos fevereiros bissextos.

Esse foi o dia em que a paciência de Maria Amélia chegou ao fim em São José do Rio Preto e a esperança de Marco Túlio o reencontrou nos olhos de um Santo Antônio de aparência grosseira, emergido das sombras em um canto triste da minúscula igrejinha secular, quase sempre vazia, com o ar mofado, escondida em um antigo bairro de Belo Horizonte, entre dois prédios decadentes erguidos no final dos anos cinquenta para abrigar com distinção as famílias mais abastadas da emergente classe média urbana.

Horas depois, o mundo ficaria sem eletricidade. A água potável disponível estaria em grande parte inacessível ou contaminada pela destruição dos encanamentos planetários após sucessivos choques de apocalípticos terremotos. Mas naquele instante em que o executivo-chefe dava um soco na mesa da sala de reuniões envidraçada sobre uma Baía de Guanabara aparentemente tranquila ao céu azul e a dona de casa sorria ao abrir seu exame de sangue em Porto Alegre, um bebê via a luz na Eslovênia e tudo parecia em seu lugar.

Há dois meses, um peixe gigantesco de formato estranho agonizou em uma praia vazia no norte do Japão onde bizarros seres marinhos, típicos das profundezas escuras do oceano, surgiram mortos aos milhares na quinzena anterior. Cientistas descobriram muita radioatividade na água de composição também alterada. Três semanas depois, pombas choveriam dos céus de São Paulo aterrorizando as calçadas, ensanguentando cumeeiras, carimbando de vermelho o topo dos edifícios polvilhados pelo grafite do caos.

No dia em que tudo se reconfigurou sobre a crosta da Terra, o touro de genética superior, campeão em preço, produtividade e fertilidade morreu em Goiás como um animal qualquer junto a milhares de outros e de pessoas sufocado pelos eflúvios que subiam do solo cindido por ondas de tremores que vinham de longe.

Em uma cidade da Alta Noroeste Paulista, depois de alimentar o marido com Mal de Alzheimer, que voltou a dormir, dona Luzia não sabia o que preparar para o almoço. Era tão chato cozinhar só para si. Percebendo que o gás do fogão aparentemente fora cortado, pegou o interfone para reclamar com o porteiro do prédio. Foi quando o chão da cozinha começou a tremer. No apartamento ao lado, Arlindo desligava o celular com a certeza de que seria reeleito presidente da Câmara de Vereadores. 

De um dos epicentros, no fundo do Oceano Pacífico, jatos de lava de vulcões submarinos eram cuspidos com tanta força que alcançavam a superfície do mar confluindo-se na onda que submergiria parte do estado norte-americano da Califórnia, toda a Baixa Califórnia mexicana, América Central, varrendo também da costa da Colômbia à maior parte do Chile.

Alguns minutos antes, em Curitiba, Aparício soubera pelo exame de DNA que seus dois filhos, e consequentemente todos os herdeiros que lhe haviam gerado, não carregavam sua linhagem. A esposa morta, cultuada como santa, engravidara as duas vezes do motorista da família. Houve uma terceira gravidez, quando perdeu uma menina, segredo que ela levara para o túmulo.

Incêndios alastravam-se pelos continentes. Explosões de usinas nucleares em série empesteavam a atmosfera. Rompimento de barragens, desabamento de pontes e edifícios em todo o mundo massacravam a população, atingida de surpresa em meio às tarefas cotidianas.

Exatos cinco minutos antes de o mundo acabar, Henrique, sufocado pela angústia do recém-descoberto processo de metástase de um linfoma de Hodgkin, tinha tomado coragem e outra dose de uísque para finalmente revelar ao Luizão, melhor amigo de uma vida inteira, padrinho de seu primeiro filho, companheiro do futebol às terças, que o amava desde sempre. Que esse amor era a única coisa verdadeira na sua triste e desgraçada vida de vencedor orientada ao sucesso profissional e financeiro. A confissão não abalou o camarada como ele supunha, e Henrique recebeu de volta com espanto o inacreditável “eu também”, seguido do abraço mais apertado com o beijo mais terno e profundo pelo qual ansiara sem esperança por décadas, misturado às lágrimas que explodiam junto com os vidros da janela da sala e todas as incertezas, misérias e maravilhas da humanidade.