Lockdown

Um produto para tirar o amarelado das roupas brancas não é fácil de encontrar. É tão difícil quanto renovar a composição das bancadas dos poderes legislativos. É como reavivar uma relação desgastada. A gente tenta de tudo, experimenta novidades, finge que acredita nas promessas dos rótulos. Nada funciona.  

O Hélio tinha chegado de Paris e ficado preso em nosso apartamento. A maldita pandemia. Ele falava todo dia com a ex que tinha deixado grávida. Ela bem acompanhada por uma outra mulher, também grávida, que conheceu no encontro semanal das grávidas de primeira viagem no hospital onde, em breve, iriam parir cada qual a sua menina. O Hélio já não era casado quando ela engravidou. A filha não era dele.

Meu marido se entendia melhor com ele do que comigo. Eu também. Na noite anterior, nós três tínhamos ido dormir de madrugada, várias garrafas de vinho depois. 

“Você olha aquela pedra no alto do morro e parece que ela sempre esteve lá. A gente não se dá conta de que estes animais e plantas tão familiares surgiram como mutações estranhas. Continuamos a história de onde entramos.”

Meu marido parou de falar e ficou encarando o céu um instante. Deu o último trago no cigarro. Esmagou no cinzeiro de cristal. Fechou a cortina. Me ofereceu café da máquina. O Hélio ainda dormia.

“O problema começa porque a gente entende tarde que as coisas existem para morrer.” Respondi, pegando a bolsa em cima do sofá.

Quando ele apertou o botão para chamar o elevador, percebi que tremia de leve.

“Parece que teve um terremoto no México, mas ninguém tá conseguindo confirmar,” falou mexendo no celular.

“Seus dentes estão mais brancos. Larga logo esse cigarro. Se cuida, tá?” Me despedi com um aceno, dentro do elevador.

“Eu nunca vou largar o cigarro”, respondeu enquanto a porta do elevador fechava, cortando nosso contato visual. “Nunca.”

Foi a última palavra que ouvi dele.

Meu casamento acabou durante a quarentena, mas só me mudei quando entramos na fase laranja. Ainda fazia home office. Quando precisasse voltar, poderia deixar o carro na garagem. O trabalho ficava perto. Gosto de andar a pé.  

No dia anterior à mudança tudo estava devidamente encaixotado graças ao Hélio. Meu ex-marido não quis nem saber, ocupado demais com trabalho, doutorado, o futuro pós-pandêmico da humanidade, do futebol, dos investimentos, dos corais na foz do rio Amazonas e da grande barreira na Austrália. Eu mesma fiz pouco. Acho mudança um porre. O Hélio praticamente encontrou o apartamento e resolveu toda a burocracia da mudança.

Depois que as caixas estavam distribuídas nos cômodos, coloquei a máscara e saí andando pela rua vazia que me levou a outra rua vazia, que tinha uma subida com uma curva que dava na avenida principal quase vazia. Subia a rua da praia e não podia acreditar na cidade que se oferecia para mim. Quase todo mundo no seu casulo, se protegendo da peste. Os poucos carros que passavam, com os vidros fechados. Deixei as compras para o dia seguinte e fiquei sentada na areia olhando o mar até escurecer.

“O Zé Maria é primo desse moço.”

“É mo-ça.”

“Se tem pinto não é não.”

“Não vou discutir isso com você de novo. Gênero tá na cabeça.”

 “Você sabe quando o lançamento é bom porque fica todo mundo falando. Só tem elogio nos comentários da página deles.”

“Acho que não devia vender essas coisas em supermercado não. Tem família. Tem criança. Tem idoso.”

“Por favor, meio quilo de patinho moído?”

Fazer supermercado. Ai, que saco! Há meses é minha única tarefa além do trabalho remoto que não acaba tão cedo. Não quero voltar pra casa. No carrinho já não cabem supérfluos. Engordei. Minha barriga começa a ficar saliente.

“Ele é contra a corrupção, mas o brasileiro é corrupto.”

“E você? Ia deixar um salário daquele à toa?”

Eu parei com a carne faz dois anos. De ovo nunca gostei. Como peixe. Tem sido uma luta diminuir os laticínios. Quando percebo, tô de frente para os queijos, namorando um camembert.

“Ruim com ele, pior sem ele!”

“Por ela, eu ficava só no cuzinho.”

“Deus dá, deus tira, viu Marlene? Abre o olho!”  

“É a natureza se vingando, vai todo mundo se foder por causa de uma meia dúzia de filhadaputa que usa os recursos do mundo como se fossem deles.”

Esses alvejantes não adiantam nada. Já experimentei todas as marcas. Em pó, em barra, líquido. Puro marketing. Todos prometem, nenhum cumpre. Vivemos o império generalizado da mentira. Colocar criança no mundo nessas condições?

“Encontrou o que tava procurando?”

“Nunca fui muito boa nisso, né?”

Nosso primeiro reencontro desde a mudança foi na seção de produtos de limpeza. Eu tinha acabado de perder definitivamente a esperança em minha busca pelo alvejante ideal, enquanto meu ex-marido colocava um galão de cloro no carrinho.

“Nenhum alvejante supera o cloro.”

“Mas estraga a roupa.”

“Já pensou em quarar? O sol é mais poderoso.”

“Desde quando você entende dessas coisas?”

Os dentes dele estavam amarelados outra vez. O cheiro forte de cigarro misturado a um perfume diferente do fougère que ele usa há décadas. Reconheci na hora o perfume do Hélio.

“O mercado imobiliário tá bombando. Vendi o apartamento pelo triplo do preço. Vou dar um tempo do Brasil.”

Depois de deixar as compras em casa, fui ver o mar. Não parecia mais que uma bomba de nêutrons tinha dizimado a população, mas o mar estava calmo demais. Ri sozinha, pensando nos peixes em distanciamento social. Os padrões geométricos no tecido meu vestido davam a impressão de estarem mais rarefeitos. Tirei a máscara e respirei fundo a maresia. Esse mundo, definitivamente, não comporta mais uma criança.