Infância

Minha infância foi uma merda. Não tenho boas lembranças. O que me lembro era da angústia de querer crescer depressa. De entender o mundo e poder ir para outro lugar. Longe, bem longe.

Depois, veio a adolescência e não foi muito diferente. A falta de sentido e perspectiva mantiveram-se num mundo brega verde-limão com música ruim e um vírus mutante que matou alguns conhecidos e me fez chegar a ficar anos sem sexo (eu morria de medo de me contaminar, o que logicamente não aconteceu. Freud pode explicar bem melhor do que eu).

As coisas melhoraram um pouco depois dos 30, e eu consegui ao menos me divertir mais. Perder as ilusões é o maior presente da vida adulta.

Aos 40 apresentou-se o período tenebroso, que deixou algumas sequelas como a esperança de que a vida fosse, enfim, melhorar. Se até o Brasil e o mundo melhoravam, talvez por osmose a evolução chegasse a mim. Mas a realidade é implacável, os infortúnios e o peso foram se avolumando.

Ironicamente, agora que tenho 55, que não acredito em quase nada (a esperança se recusa ao último suspiro) e que o início da degradação física emparelha-me à da esfera de pedra, metal e líquido cuja atmosfera envenenada respiramos e sobre a qual caminhamos como baratas tontas, do nada a lugar nenhum, agora que esse planeta vive a era da desconstrução de tudo de bom que por aqui prosperou, agora que a bizarria e o irreal evoluem saltitantes pelos dias como um bobo da corte aos nossos olhos incrédulos, agora, precisamente nos momentos finais desse suspense de horror, tenho acordado estranhamente feliz.

A culpa teria sido da esperança que cultivei com tanto empenho?

Crianças, envelheçam. A natureza sabe o que faz.