Mãe Coragem

Eu sei que ele vai chegar. Não vai demorar muito. Sei também que é bastante provável que não o veja, que não ouça nada até que ele esteja próximo demais de mim, como já aconteceu.

Achava que não tinha mais medo. Tinha orgulho disso, até descobrir que o tempo também não ajudou. Tem dia em que eu só penso em quando esse desgraçado vai aparecer na minha frente e tirar a paz tão fragilizada em que eu vivo, em como me tirou o filho adolescente que ele mesmo inseminou durante uma sessão de tortura.

Como alguém já disse, a tortura, mesmo depois que acaba, nunca termina.

Na cozinha, enquanto espero a máquina de café me servir, sinto uma presença. É como se alguém me observasse, como se estivesse bem perto de mim.

Procuro em volta. Procuro lá fora, pela janela grande que fica sobre a pia. Nada se mexe entre as folhagens sintéticas que escondem o muro que me separa do vizinho. Incomodada, vou até a sala, olhar pela janela da frente.

Naquele dia não tinha brisa. Imaginei que fosse minha paranoia de sempre ou efeito retardado do início de manhã nervoso que eu passei sentada na mesa da sala, digladiando com o coordenador virtual de água e esgoto da prefeitura, tentando pela enésima vez resolver pendências relativas ao vazamento monstruoso que se arrasta há séculos na área onde o encanamento leva a água da rua para a minha casa e para a do vizinho dos fundos.

É quase hora do almoço, mas eu não tenho fome. Busco alguma coisa pra ler na estante do escritório. Ansiosa, peço ao assistente que leia um conto qualquer pra mim. Os algoritmos sugerem O Inimigo. O tempo não queria passar. Eu não conseguia tirar o vazamento da cabeça.

Acontece sob a calçada. Chega a minar na sarjeta, onde um microlago de água potável nunca seca. Com a falta crônica, isso é inconcebível! Já fiz reclamações. Nada muda. Nem a conta astronômica que chega todo mês. Nessa cidade, parece que nada funciona, a incompetência foi normatizada há muito tempo.

Daí, vêm as campanhas hipócritas contra os mosquitos democratizar a culpa pelo surto de doenças que já deveriam estar extintas. Mesmo com o fim do cultivo extensivo da cana-de-açúcar em 2030, a coisa persiste. A savanização da Amazônia também agravou a migração urbana desses retirantes invertebrados, mas a comunicação oficial segue martelando há décadas para que a gente “pare com isso”, que é “um problema de todos”, mas que, “juntos, venceremos o mosquito”.

Talvez o efeito da cafeína tenha me exacerbado os sentidos. Penso nisso quando começo a perceber detalhes inéditos na paisagem sonora da sala. Essa pulsação sutil que me levou de volta à cozinha não vinha da geladeira, está dentro do armário debaixo da pia.

Naquela casa, o encanamento entupido, problema tão antigo quanto o vazamento na calçada, é aparentemente invencível, como o autoritarismo na história do país. O fato é que a pia não era a origem daquele ruído sincopado. Um pressentimento ruim me impede de abrir a porta do armário e eu faço o que as pessoas fazem quando não pretendem encarar um problema de frente. Faço que não é comigo.

No banheiro, escovando os cabelos para prender num coque antes de sair, o barulho subira alguns decibéis. Meus cabelos estavam embranquecendo mais rápido ou seria a qualidade ruim do tonalizante? Enquanto trocava de vestido no quarto, me pareceu que a palpitação aumentava ainda mais. Toquei a parede. Dava pra sentir. Dump, dump, dump…

Desligo o umidificador central, pego as chaves, coloco os óculos escuros, a máscara respiratória e saio pelos fundos de casa para me encontrar com a Dora.

“Não há moradores no 31, no momento.”, avisa a voz
“Mas ela marcou comigo. Preciso pegar a cachorrinha.”
“Nenhum recado para você. Ocupante do 31 saiu bem cedo com o animal.”, responde.

Rever num filme antigo a inutilidade dos robôs enquanto classe operária me deprimiu bastante, noite passada. A tristeza só aumentou frente à impotência generalizada dos trabalhadores de carne, osso e próteses no noticiário. Bilhões de partículas de microplástico correndo nas veias, enfraquecendo as sinapses mal formadas pela educação precária, pela comida ruim. Oprimindo mais e mais a consciência manipulada pelo ciclo sisífico do bem-estar falsificado que impede qualquer mudança. A realidade, mais bizarra que a ficção, vem piorando muito e muito rápido.

Quando cheguei em casa, tinha um veículo autônomo da companhia de água e esgoto da prefeitura estacionado bem no portão da frente. Na cozinha, o barulho parecia mais alto. Uma máquina antiga de lavar roupas centrifugava atrás da parede. Lembrei de quando era menina.

A sensação de fazer parte do pesadelo de alguém que começara a tomar corpo no meio do caminho de volta da casa da Dora, se acentuou.

Lembranças sem nexo (eu tinha certeza de que não eram minhas, apesar de familiares) cruzavam minha cabeça sem parar. Quando essas sequelas da época da tortura reapareciam, sabia que não viria coisa boa.

Subi até o quarto para pegar o remédio da dor de cabeça. Descubro os móveis em lugares trocados. Escuto a respiração, que num primeiro momento penso que é a minha. Viro o rosto na direção da porta. Pelo espelho do corredor, o movimento de um vulto escapando para a escada.

Corro, seguindo o rastro olfativo do que parecia loção pós-barba. Quando percebo, fui parar na cozinha, onde uma xícara suja de café jaz no fundo da pia.

“Por que você demorou tanto?!”
Respondo à mulher sentada na mesa ao lado da porta da dispensa: “Fui até seu prédio. O e-door disse que você tinha saído de manhã. Cadê a Catarina?”
“Foi pro céu.”
“Quando?!”
“Uma hora, mais ou menos.”
“Mas a gente tinha combinado que seria mês que vem. Os pelos ainda não cresceram muito. As marcas da cirurgia chamam a atenção!”
“Eles não desconfiaram.”
“Então, você conseguiu?!”
“Liga a televisão.”

O canal de notícias só falava da morte do marechal. Outras consequências do atentado, como a internação em estado grave da primeira-dama, que perdera um dos olhos, e dos braços arrancados do secretário de segurança, eram fartamente exploradas. A cadelinha, que tinha explodido no colo do marechal depois de resgatada de um canil clandestino pela divisão antissequestro da polícia, era tratada como estatística.

A onda de furto de animais de estimação com pedidos de resgate milionários, até então abafada pelas autoridades, era endêmica nos bairros nobres da capital do país. Em breve, dividiriam o noticiário nacional com os escândalos da semana.

“Esse governo tá podre. Ia cair de qualquer jeito.”
“Você falou com o secretário?”
“Claro. Peguei as passagens. A gente precisa sumir imediatamente! Tomei a liberdade de fuçar no seu armário.”

Quando o avião pousou no Brasil do Norte, ainda dentro da aeronave, fomos abordadas por policiais à paisana que nos conduziram algemadas à sala da imigração. De lá, nos levaram em um pequeno jato até o resort de luxo do outro lado da ilha do Reino Independente de Fernando de Noronha, onde fomos recebidas com Dom Pérignon pelo general, filho mais velho do marechal, seu herdeiro político imediato e ditador seguinte da linhagem, no Brasil do Sul.

Duas taças depois, Dora e ele dormiam profundamente. Para sempre.

Como boa geminiana com ascendente em escorpião, consegui trocar as taças bem debaixo do nariz de ambos. Minhas habilidades com as mãos extrapolavam o círculo cirúrgico, mas parece que o serviço de informação não sabia disso.

Voltei a encher a taça, engolindo o comprimido de cianureto que tirei da bolsa depois de enviar uma mensagem ao secretário e outra ao tenente-coronel, herdeiro mais jovem do marechal.

“Filho, querido, o caminho está livre para a redemocratização. Que 2032 seja um marco de luz na história do país. Viva a reunificação! Viva a Terra de Santa Cruz! Beijos revolucionários. Mamãe.”