Revanche

sangue na parede

Eu não perdoo o filho da puta que puxou o gatilho naquele carnaval. Nunca vou perdoar. Não transmutei meu ódio em compaixão como prego nas entrevistas coisíssima nenhuma! O bisturi nas mãos de um bêbado é um revólver. Milito pelo desarmamento porque sei que com uma arma na mão – e eu seria o primeiro a ter uma – iria ao inferno para enfiar o cano na boca daquele desgraçado. Sei quem ele é. Sei onde ele vive. Sei até o nome dos membros da família, porque essa sub-raça coloca tudo nas redes sociais.

Está tudo lá. Hospedagens-experiência, jantares com sorrisos forjados em procedimentos ao lado das opiniões equivocadas que ninguém pediu, junto com o resultado do vestibular dos filhos que serão doutores “como o vovô”.

E os exames de DNA, atestando a procedência “humilde, mas europeia”?

E a fé negociada com o deus (“Gratidão! Gratidão!”) que lhes franqueou essa Disneylândia?

E a constrangedora intimidade virtual com celebridades?Até o número de pregas do cu essa gente divulga.

Ah, não esquecer das garrafas de bordeaux e dos quilômetros rodados em blindados lustrosos de sangue e suor alheios. Tudo isso e muito mais, incluindo o apoio ao governo que representa “o novo” na política, que logo deletarão de vergonha.

Jamais mataria um filho dele. Nunca o privaria do convívio com a companheira. Ás vezes, quando perco o sono, o sol se levanta e eu lá, imaginando formas lentas de tortura. Não consigo perdoar. Não consigo. Foi um erro grotesco de terceiranista, o álcool não teve nada a ver com isso.

Médicos. Raça desgraçada. Senhores da vida e da morte, né? Vou mostrar pra ele quem é que decide as coisas por aqui. Uma existência devotada aos direitos humanos antes dele nascer, atormentado em ser justo, mesmo condenando quem merecia. Nunca saí de um tribunal com a alma leve. Nunca!

“Pelamordedeus, Dr. Pacheco, o senhor não pode ficar de pé!”

“Qual dessas portas é a do banheiro?”

Quando o carro despencou na ribanceira eu perseguia o canalha em imaginação. Ia esmagar aquele rosto contra o vazio ali na frente. Por ironia, vim parar no hospital em que ele trabalha. Vou descobrir o turno do carniceiro. Vou mostra pra ele a potência perfurocortante da vingança. Chegou a minha hora. Chegou a minha vez. Agora, sou eu e ele. A Justiça fica de fora. Cega.

Ele não vai lembrar de mim, teve tempo suficiente para esquecer. Um juiz – com J, de Justiça, maiúsculo –, não esquece o olhar do condenado. Nenhum salário paga a paz da vocação. Julgar não cabe a levianos gananciosos pela admiração materna. Condenar não é apanágio de malformados gerados no óvulo da vaidade de província chocado na estultícia do progenitor. Ele vai aprender a ser gente!

Hoje, sonhei que estava numa praia de areia muito branca. Ventava sem parar. A franja do mar perdia-se da vista e o sol era tão forte que eu mal conseguia abrir os olhos. Fazia força, mas era quase impossível. O ofuscamento me paralisava as pálpebras, agora fechadas. Tentei abrir os olhos novamente e não consegui. Um desespero crescente foi tomando conta de mim, que continuei tentando com vigor. Me esforçava, me esforçava… Abri os olhos. Acordei. Lá estava a cara dele. Bem na minha frente, debruçado em cima de mim, estuprando minha retina com a perfeição ortodôntica do sorriso.

“Como é que o senhor está?”

Pena que eu não tinha nada ao alcance da mão.

A cepa superior de um médico com alma o avizinha aos santos, mas o sol de sujeitos como ele é a luz verde do dinheiro. Não estão nem aí com o resto da humanidade que não veste branco. Conheço assassino serial com mais coração. Esses olhos arrogantes. Essa sofisticação de shopping center.

“Se não fosse o doutor Celso, você não estaria aqui, Pacheco. Foi uma operação delicada, você estava praticamente condenado! Te tiraram das ferragens. Foram 16 horas na mesa de cirurgia! Esse homem salvou sua vida, Pacheco. Você guarde bem essa data. Nasceu de novo, meu amigo. Nasceu de novo. Um milagre!”

O dom de perdoar, nunca tive. Cozinhar meus desafetos no caldo grosso do ressentimento sempre foi vício. Vergonhosamente, quase esporte, tenho que confessar. Dizem que sou generoso e eu sou mesmo. Com tudo. Com dinheiro, mais ainda. Sempre gastei o que tinha e o que não tinha com os outros. A única coisa que consigo guardar é rancor.

Quem nessa vida não tem seus defeitos?