Sexta-feira

no future

“Eu não acredito”, você escreveu pelos muros da cidade como um adolescente, junto com rabiscos abstratos. E na folha de rosto da agenda, como se ainda fosse universitário. E com batom, no espelho do motel de classe, fantasiando um quarto vagabundo de beira de estrada que aceitasse dois homens no pico da virilidade – somos dados a fantasias desde que nos conhecemos por gente, mas o batom tava lá, esquecido por alguém que curte rebocar a boca de vermelho sangue. Dois caras que já passaram dos quarenta com suas barrigas peludas e barbas sendo invadidas pelos fios brancos, os corações cansados de amar, batendo com força um contra o outro congestionados de histórias sem final feliz e por alguma patologia silenciosa como as que quase todos carregamos nos dias de hoje.

Você sabe faz tempo que tudo é ilusão. Ri da porra toda. Vira um gole do 12 anos que trouxe no porta-luvas. Vira moleque. Manda outra, depois gargalha com os olhos brilhantes em mim. Esses olhos que há décadas nunca me esconderam nada. Olhos corajosos de um cara cheio de bravura. Desajeitado com as coisas do afeto. Acostumado a ser bruto por fora, doce por dentro. Me dá vontade de te abraçar forte, te proteger contra o que eu sei que não há proteção, como você faz tanto comigo. O mundo já era essa escrotidão antes de a gente nascer.

Na estrada, pegamos o final do eclipse e você lembrou que era sexta, dia internacional da alegria proletária. Do reinado noturno da esperança dos assalariados madrugada adentro refestelados em bebida e cigarro baratos. Sexta é de fé e fissura (que sempre andam juntas), o final de semana de sonho que redima os cinco dias dito úteis divididos em horários comerciais que mal pagam as contas, esnobando a vida como se houvesse outra. Esmagando o bagaço que já não tem caldo. Espremendo forças ao esgotamento pra tirar algum sumo. “Mas os patrões estão na mesma”, você lembrou. “Olha a gente aqui.”

Patrões, mas um tanto operários. Somos é escravos com algum dinheiro. Um erro de contabilidade que nenhuma reforma fiscal vai consertar. Falimos grandemente. “Eu não acredito. Não acredito que as pessoas se olhem no espelho e não percebam que se morre um pouco todos os dias até chegar no último.” Que um curso qualquer vá transformar seu futuro ou que ascender na hierarquia corporativa signifique alguma coisa além de trocar a figurinha rara da existência plena pelos weekends de consumo premium, completando páginas do álbum do vencedor (pulando as imagens das últimas horas tristes do domingo, naturalmente, quando indutores de sono e orações para o deus de sua preferência terão o mesmo efeito passageiro e acalentador).

Você sempre teve pena dos estagiários. Eu achava isso bonito em você. A ponta de humanidade. O olhar que ficava triste quando via gente fodida. “Eu não acredito que agradecendo injustiças, nos tornando mansos, vamos mudar alguma coisa”. Também não acreditava que tirando os prazeres gordurosos e sanguinolentos da mesa a saúde seria resgatada de corpo e alma. “Não acredito que ainda dê tempo, nem que o amor nos proteja. Acredito não.” Sempre tão seguro, andava se sentindo exposto.

Eu tentava explicar Aquário na casa VIII do teu mapa e o Marte retrógrado com a Lua Cheia eclipsada lá e os transtornos que matam e mantém ao mesmo tempo e durante tanto tempo e sobre esse sentido da vida que você percebe que não existe mais porque nunca houve e percebeu isso só agora porque fazia parte do contrato que você fez consigo pra suportar tudo até aqui e como dentro de nós morava tanta gente e como por isso a gente precisava de um líder que organizasse e fizesse funcionar essa bagunça toda e que ele talvez não tivesse mais motivos pra continuar seu trabalho e tivesse chegado e dito pra si “Eu não acredito.” Você riu. Anarquista desde sempre, nunca acreditou em líderes, partidos, assembleias “e essa merda toda”. Ainda tachou minhas metáforas de bregas, comodistas, imprecisas, ingênuas, pequeno burguesas. Você dizia “a política é um mal necessário. É igual o trabalho”. Não acreditava, mas aceitava. Suportava por conveniência e “porque somos adultos, porra”. “Livre-arbítrio sempre achei truque, mas acreditava em liberdade. Hoje eu vejo, tudo ilusão.”

A gente entrou, gozou, tomou banho, uísque e foi embora. Quando você me deixou em casa e te lembrei o quanto te amava e de como você era importante pra mim, você me falou de apego. Eu reforcei, tudo ia se resolver, tudo passa, isso tudo também ia passar como tudo tem passado até aqui. O futuro seria melhor, o Brasil sairia dessa, o mundo estaria prestes a entrar numa nova Era. “Você sabe que eu não acredito”.

Foi a última coisa que ouvi de você. Foi o que eu repeti na frente do espelho. O sangue que já não cabia dentro de nós, escorrendo. Aquela gente toda sendo despejada. Um bando de sem-teto – homeless, com o charme caipira e irresistível do anglicismo.

Foi tudo rápido como são as mudanças quando não tem mais jeito.

Pena que você não quis esperar. Você não acreditava. Entendo. Sempre entendi. Nunca acreditou. Eu também deixei pra lá. Já era tarde. Já era sábado. Eu teria o resto da vida pra tentar acreditar.