Terapia

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Minha vizinha é antiquada como um telefone fixo, daqueles com a rodinha de discar. O marido dela está entre os 25% que trocam de celular todo ano. Formam o casal mais esquisito do quarteirão. Ela usa anágua. Ele não usa nada por baixo da calça. Dá pra perceber em detalhes toda a documentação de A.C., inclusive o detalhe de lhe faltar a capa protetora. Meu vizinho, maconheiríssimo, já me pediu fogo na calçada da nossa rua, em pleno final de tarde, quando eu passeava com o Alandelon carburando o Malborinho da happy hour.

“Só te dou fogo se rolar um tapinha.”

“Até uma palmada, se você quiser.”

“Safado”

Detesto maconha. Demorei metade da minha adolescência pra perceber que não era legal ficar chapada. Fumei só pra fazer charme pro vizinho hipster, o cheiro estava irresistível, eu amo esse perfume.

No início da minha vida profissional, quando eu ainda achava que trabalhar me levaria a algum lugar – e antes da maconha, é preciso frisar, porque dizem essa besteira de que ela leva a outras drogas – tive meu momento pó.

Lembro bem das madrugadas que atravessávamos na casa da Bia, cheirando e falando bobagem. Era um point de maluco onde se encontrava todo tipo de gente, até aquele gerente VIP do banco, todo engomadinho, que a gente nunca imagina que saiba o que é cocaína. Menos ainda que vai ver o cara aspirando carreiras tão gordas que fariam qualquer usuário enfartar, como aconteceu com o pai da Bia. Era produtor de televisão. Morreu na ilha de edição particular que mantinha em casa.

Pó é uma coisa assim: você vira amiga instantânea das pessoas. Arregaça a alma para  quem estiver do lado. Vai logo falando coisas que demoraria meses pra liberar até numa sessão de análise. Diz coisas que jamais confessaria a alguém que não fosse íntimo. Tipo que curte mais anal que vaginal, que sente tesão por cavalos e amputados, que se masturba pensando no Ronaldo Caiado e vergonhas do gênero. Coisas com as quais você, que me ouve, já deve estar acostumada.

A gente também fica se achando muito esperta quando tá cheirada, sabe? Dá palpites sobre assuntos que não conhece, como um idiota de rede social respondendo perguntas do gênero “Romero Brito é arte?” ou “Por que pra ser galã global tem que fazer a pontinha?”, em referência ao procedimento de rinoplastia que afila a ponta do nariz de atores da Globo. Investe tempo precioso de vida quando poderia estar fazendo coisas úteis ou verdadeiramente estimulantes.

Pó, ácido, êxtase, tudo passou pela minha vida e foi embora levando parte preciosa do meu tempo, do meu dinheiro e provavelmente um naco do meu cérebro, parte que menos me faz falta, tenho que admitir. O álcool e o tabaco estão comigo até hoje. Pelo jeito, até a cova.

Também gosto de roubar. Roubo desde criança. Acho que isso eu ainda não te contei. Sempre pequenas coisas, sem importância. E nunca, jamais, de amigos ou conhecidos. Tenho um código de conduta rígido. Bandidos tem muito mais moral do que o cidadão comum imagina. Roubo, sobretudo, em lojas. Pego as coisas que quero, pelas quais não posso ou não devo ou não quero pagar. Sou ótima nisso. Tanto que nunca fui pega. A aparência ajuda muito também. Cara de bem-nascida, bem-criada, bem-vestida e num carrão de 300 mil dinheiros.Quem desconfiaria?

Matar é hábito recente. Verdade que ainda não matei ninguém, só cachorros e gatos. Foram muitos. Bastante. Ontem mesmo, envenenei umas pombas que infestavam as imediações da área em que costumo estacionar. Tenho planejado alguns abates. Gente importante. Políticos, artistas, uns primos empresários aí, que é pra dar mídia e limpar um pouco o mundo. Até o recém-nascido de alguém que eu odeio. Odeio! Ele não vai deixar descendência! Não vai!

Mas pretendo fazer tudo muito bem feito, sabe? Pra parecer natural. Pensei em envenenamento. Acho luxuoso. E como tenho sangue russo, essa coisa, eu… Bom, o veneno é perfeito. Não deixa vestígios. Leva uns 50 minutos pra fazer efeito. Tempo da nossa sessão. Parada cardíaca. Fulminante! Como eu preciso praticar, coloquei no recheio desses bombons ma-ra-vi-lho-sos de cupuaçu que trouxe da minha viagem a Manaus. Sim. Um deles você comeu no início da nossa sessão, né? Tava gostoso? Como você interpreta isso, Maria Alice? …Maria Alice? …Maria… Ma…

“Meu Deeeeus! Socorro! Alguém me ajuda aquiiii!”