Revelação

david bonazzi miolopordentro

“Eu gostaria de estar errado.” Foi a primeira frase que viria depois que ele disse “Vou te contar uma coisa que você ainda não percebeu. Ou não quer ver.” Tudo que ele me disse na sequência me deixou catatônica. Fiquei chocada. O tempo parecia ter parado.

Como não percebi aquilo? Todos esses anos vivendo ao lado dele e nunca percebi nada. Foi preciso ele me esfregar na cara o que sempre esteve na minha frente, debaixo do meu nariz! Não sabia até onde ia a vergonha antes de virar raiva que depois virou um grande vazio que engoliu os dias daquela semana triste e o que ainda sobrava até o final do mês.

Eu não sei como foi que eu sobrevivi.  Na verdade, não me lembro direito. Desse período sobrou muito pouco. E as poucas lembranças eu não sei até que ponto são reais ou imaginadas. Deletei quase tudo tão bem deletado que nunca mais consegui lembrar com certeza como foram aqueles dias de transição entre realidades.

Ele? Era como se nunca tivesse existido. Sabe aquelas histórias que contam as pessoas muito religiosas de quando encontraram com Deus? Pois a minha epifania foi ao avesso. Fui jogada em um buraco e deixada ali para morrer, fui sugada por um vácuo. Sentia muito frio naquela casa. E ainda era verão!

Naquele mesmo dia da revelação, acordei com o coração na boca depois de dormir por quase 24 horas. Precisei chamar a ambulância. Na verdade, quem chamou foi o vizinho que eu mal conhecia e raramente cumprimentava quando nos cruzávamos, mas que foi a quem recorri.

Fui diagnosticada com estresse pós-traumático. Me deram uma injeção e receitaram medicamentos. Comprimidos variados que tomei de manhã e de noite por mais ou menos uns quatro meses, quando as coisas começaram, aparentemente, a voltar ao normal.

Me sentia estranha. Como se não fosse eu ali. Parecia que tinha trocado de corpo. Agora, era outra. Na minha casa não tinha mais nem vestígio dele. Não tinha nada. Nem o cheiro. Nada mesmo. Ele tinha sumido. E, olha, eu acho bem curioso que não consiga lembrar direito da cara dele. Não sei nem até que ponto seus olhos eram mesmo azuis.  Foi preciso muita coragem, que demorei semanas para juntar, para conseguir ir até o cemitério. É uma pena que no túmulo dele não tenha nenhuma foto.