Bilhetinho

film

Caro desconhecido, simpatizo pelos que purgam a pasta escura do peito com técnica e um sorriso. Percebi desde a primeira vez que nos encontramos que se refestelar com a lascívia da exibição compulsória também não é a sua. Cada vez que no meio da convulsão você chega e sai como se nem vento tivesse passado pelo recinto, me enche de esperança por um mundo melhor, mesmo sabendo que a essas alturas um mundo melhor muito provavelmente já não seja mais possível.

Essa é uma das manifestações mais bonitas de civilidade que tem me encantado. E o amor vai brotando no coração do silêncio. De repente, te percebo chegando ao mesmo nível de afeição que sinto por um livro querido e pelo amigo que já morreu. Provocando a ternura que o cachorro aleijado que mora na rua a caminho do meu trabalho me provoca, assim como a gata cega, velha e manca, tão linda, tão altiva, tão tranquila na sua escuridão debaixo do sol.

Quando me vem seu rosto de noite, segundos antes de afundar no sono, ou de manhã, sobreposto à paisagem correndo lá fora, através do vidro do carro, é o mesmo amor. Quase igual ao que sinto pelas horas que passaram para nunca mais no meio de uma noite úmida perdida em algum lugar da juventude. Intenso e misterioso como o perfume que uma árvore que até hoje não consegui decifrar exalava depois da chuva na região do antigo apartamento em que vivia minha mãe.

Sabe aquele plano B que não rolou e continua o nosso preferido porque ele somos nós? Então. Você está a uma cabeça de distância em porcentagem de afeto. Exatamente com a mesma quantidade de estrelas do álbum daquela banda de um fracasso só, que só eu e talvez mais duas dezenas de trinta conhecemos e amamos com fúria adolescente.

Eu, como você, também não me importo. Igual você faz, abaixo a cabeça e olho para o outro lado quando você aponta na esquina. E continuo te acompanhando depois que você passou, cuidando para que nada te aconteça até você desaparecer lá longe, aonde a rua desce e faz a curva. Da mesma maneira que já vi pelo retrovisor, mais de uma vez, você fazendo comigo.