Dropout

ben

Na manhã, minha alegria se espraia 

ao meio-dia, tudo posso ver

chega a tarde e a cara contra o vento arde

à noite, angustias antigas me vem roer

A vida assim num dia passa

Quando, de repente, dou por mim,

o tempo, mais rápido que os relógios,

marcou outro ponto pro fim

Os versos vieram com os primeiros fios de incerteza e barba, depois ele nunca mais escreveu. Quando morria de ódio da vida pela qual deixava-se levar, tatuou uma marca com a ponta do cigarro no pulso esquerdo para não se esquecer. De tempos em tempos, olha para ela como se consultasse um relógio colocado ao contrário, lembrando na dor da brasa afundando a carne a determinação em escapar do inferno. É como se o tempo-invenção-dos-relógios se alargasse. Vive no purgatório. Conheceu o paraíso de vista. As coisas passam sem quase sair do lugar. E vem mais uma onda.

Desde que avançou a última fronteira, a sensação de flutuar sobre o abismo não o incomoda mais. Namorando a dissolução, perdeu a vergonha de cortejar o fim. Tem medo. Não tem. Tem medo. Não tem. É tudo luz e sonho. Volta nadando ao mesmo ponto. Hoje o mar promete. A vida também prometia e não cumpriu. O mar deu origem à vida, melhor não botar fé. Viver é aprender a não dar bola.

Já quis romper com tudo, mergulhando no autoexílio de alguma causa humanitária, sumir no mundo. Preferiu puxar o gatilho da loucura e descarregar-se de quem lhe fazia mal todo santo dia. Abusado sem dó. Torturado com crueldade por aquele velho doente, sempre fedendo a peixe e cachaça. Apartado do seu melhor. Roubado no que tinha de mais precioso. Sêmen. Sal. Cocaína. Camisa-de-força. Lençóis. O corpo do velho afundando no mangue. Comprimidos brancos. Amarelos. Cor-de-rosa. Poesia sobre fundo branco. Distorções ecoando contra muros imaculados de luz. Batia a cabeça na parede até expulsar os demônios lá de dentro, mas eles voltavam. Vinham em ondas. Dizem que as maldições não vencem a travessia do oceano. Não foi a viagem, foi o mar que fez com que atravessasse a si. Uma prancha o salvou. E Hendrix. E Tathagata. E o desequilíbrio, que gera todo movimento do universo, o levou ao outro lado do planeta.

A vida é como um game, cara. É só não atirar em cada inimigo que aparece do nada. O lance é se deixar morrer quantas vezes for necessário. Quando acabar, acabou. Ganha quem não sair do zero.

Reconhece a função transcendente do lixo que mantém tudo flutuando. Dessas misérias que transformamos em necessidade e vão levando o planeta ao estado de indigência. Lixo em excesso. Muito Lixo. Muita dor. Às vezes, a gente cai e vai fundo demais, mas sempre volta. Como uma garrafa pet. A dor, essa maldição que faz a gente flutuar. 

Já teve a manha de contar cada faixa pontilhada na estrada que desce desde a cidade na merda de um dia errado, a cabeça esfriando a cada quilômetro. Raspou o braço esquerdo nas pedras. Laranja sempre foi sua cor. Curtia umas nuances de roxo, até descobrir o azul royal. Alguns queloides apontam que o caminho continua pedregoso. No começo da noite, a futura cicatriz indica que continuará colecionando significados na pele como um céu de crepúsculo cruzado de fiapos coloridos. Tem estrela pra todo lado. Incontáveis. Faiscantes. Tantos universos, tanto nada repetido. Tudo cheio. Esse nada atômico que pira a cabeça da gente. Essa energia capaz de fundar civilizações.

Consulta mais uma vez o pulso. Suspira devagar, vento no rosto. Começa a subida do morro dentro da escuridão. Se deus existisse, seria mais fácil. Sobe na pulsação das cigarras, o peso que afunda os pés no chão deixa tudo mais presente. O caminho do meio é vazio. Nada importa. A mata atlântica vive por um fio. O pantanal seca. Um dia, a Amazônia inteira vai caber num xaxim. Há humanidade no movimento dos galhos que ele fica aliviado em não precisar contar.

A felicidade anda sozinha. A felicidade é uma moça emancipada. É um cara sem pressa. Um caminho torto. Cachorro louco, sem dono. Grão sem razão de existir. A felicidade é areia. É poeira. Ele ri. Ele corre. Ele salta. Lá de cima do morro, olhando as luzes que polvilham o vilarejo, ele solta um grito do fundo da caverna do peito.

A única certeza é de que amanhã começa hoje, como agora há pouco foi ontem. Cada folhinha, cada borrifo de espuma esperando o sorriso do sol outra vez. E de novo o mar, as ondas e a areia. A vida vale por tudo que carrega de estranho e único. Todo sofrimento um dia vai terminar. Por enquanto, no espaço de segundos, ele ainda existe.