Nirvana

resto de cerca no meio do rio

Um dia, você vai dobrar a esquina e o inesperado virá em sua direção. Não importa se você vai gostar ou não, escolher estará além das possibilidades. Quando chegar em casa haverá silêncio, você e os esporos flutuando nos fachos de luz que penetram pelas frestas da veneziana quebrada e terminam sobre os tacos descascados do imóvel quase vazio. Sob a porta da sala, uma correspondência que o carteiro colocou junto com as contas a pagar. Aquela carta que você tanto esperou. Mas a notícia que ela vai trazer agora não valerá mais nada para você.

Será um dia de luz difusa em que o céu parecerá mais lento, um cheiro delicioso se espalhará em volta e nuvens de tempestade apontando no horizonte virão junto com o alívio pela mudança, antes temida, combinando com a temperatura amena.

Neste dia você não sentirá medo. Não será possível mudar de ideia. Não haverá alternativas. Plano B. Redenção. Recomeço. Nem pense em reconsiderações, apenas continuidade. A porta dos fundos não será opção, em seu lugar uma parede terá sido erguida. Não haverá meios para justificar os fins. Esperança será apenas o nome da pizzaria da esquina. Você também não vai mais precisar dessa forma prosaica de autoengano travestida em autoajuda fantasiada de probabilidade que se finge ciência com status de destino.

O tempo para o que não aconteceu estará esgotado. E não, não fará a mínima diferença se você se satisfez, se fez dinheiro, amou, foi amado, formou-se, tomou chuva, sol, vergonha na cara, fez a egípcia para a vida ou o bem sem olhar a quem. Nada disso fará diferença alguma, inclusive para você. Aliás, principalmente para você, que perceberá ter sempre estado sozinho. Condição inescapável de cada um. Como consequência, esses seres falantes, pensantes, farfalhantes, exasperados de luz, que te rodeiam, não conseguirão mais disfarçar a própria imbecilidade. Cuidado para não tropeçar no vácuo e ficar sem assunto.

Será aguda a percepção da falta de sentido em lutar contra aquilo que você julgava seu dever. Sua preguiça e autoindulgência serão apenas preguiça e autoindulgência. Será o fim da culpa, essa velha inútil conhecida. E tudo que te dava orgulho, essa estupidez de pavão que vem em cores e tamanhos variados, não servirá para mais nada. Roupas, memórias, bodas, certificados, livros e libretos tampouco. Nem a arte. Nem o entretenimento. A política. As drogas. Os percalços da economia mundial. A morte não te servirá de nada além de descanso final aos ossos. A ideia de morrer não poderá mais te confortar, nem como desculpa para não viver.

Tomará consciência, afinal, que é parte do mar e também da cadeira, do copo meio cheio e meio vazio, do líquido que o preenche e do vento que toca teu rosto. Que jamais foi infeliz, mesmo quando julgava sê-lo. Era apenas melancolia por estar no lugar errado. Será a alforria plena, meu chapa. Plena! Nada de mais. Só a plenitude como você nunca sentiu.

E não. Não. Não se engane. Você não é especial. Único. Perfeito. Não tem missão alguma a cumprir como um personagem de seriado de TV, nem nada disso que todo o marketing do mundo tenta te convencer para vender seus badulaques, ideologias, obediência a leis ordinárias e às chamadas transcendentais. Isso tem acontecido por milênios com gente comum como você. E continuará a acontecer, enquanto houver uma pessoa de pé sobre as duas antigas patas traseiras, com um pouquinho a mais de conexões neuronais que o resto do gado humano.

Sorte sua, meu amigo. Pode ir andando. Você está livre.