Apelo

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Enquanto o planeta vermelho se destaca e se move devagar pela abóbada obscurecida, piscando aos seus olhos para ver se alguma coragem te consegue inspirar, aqui embaixo, um fermento me agita o peito, desce pelas tripas, disparando o coração, e me enrubesce entre raiva e timidez com o arremedo de possibilidades contra a muralha do seu medo.

Poderia sair nu no deserto fresco da madrugada e fazer de teu nome eco em alguma rua sem saída. Poderia dançar sob a janela do teu quarto. Acordar o cachorro. Não há nada a esconder. Não existe sofrimento necessário além dos limites a serem transpostos ao meu abraço apertado que te espera. Ao meu amor enorme, e ao sexo que se dilata e umidifica, enchendo a cueca de visco. Um universo amoral como todos os universos, perfeitamente gigante em tudo que poderíamos ter construído juntos. Mas você morre de medo.

Sim. É preciso amar. É o que resta nesse mundo de consumição desesperada, com nada no final. Precisamos desafiar teorias, desafiar temores difíceis de serem confrontados e também esse nosso ímpeto sempre barrado por nós mesmos. Perdão é bônus, se não vier, será irrelevante como as questões financeiras frente às grandes questões humanas. Da mesma forma que um Estado neoliberal teima em invertê-las, a gente se ilude e faz igual, na santa e segura ignorância. Você escolheu o medo. Entendo e te perdoo. Sei das dificuldades deste lugar atrasado em que se cultiva a intolerância a tudo que ilumine as rachaduras que se estendem às construções. Essa cidade velha logo vai desaparecer.

Não. Não sejamos neoliberais com nossas vidas, sejamos libertários. A existência é maior do que isso. Meu prazer em estar vivo é maior ao teu lado. É preciso ter coragem. E não ter medo de errar. Quando acontecer, perdoar para de novo podermos errar, e novamente perdoar e sermos perdoados e errarmos mais uma vez e fazermos tudo cada vez mais humano. E, às vezes, pior. Porque somos humanos. Integralmente. É absolutamente necessário não ter medo. Ou a janela não será reaberta, o céu não será nosso outra vez. Não seremos transportados àquela noite na qual a natureza, coadjuvante, nos recebeu como reis. Seremos mitologia inútil.

Somos suficientes um ao outro. Mas é preciso não ter medo. Se houver, lutar. Nunca se acomodar na covardia. Nós nascemos guerreiros. E sempre, sempre devemos nos perdoar, por irrelevante que pareça, pois também nascemos doces, bondosos e plenos de amor, por mais que o mundo tenha nos convencido do contrário durante esses anos. A tristeza existe, desnecessária como um inseto. Perceba. É quase madrugada. É urgente ter coragem para amar. Acima de tudo, é preciso perdoar, meu amor.