Noturno

CAVALIERIDELLAPOCALISSE roberto ferri

Conversei com o papa Francisco por horas, no Vaticano, onde tinha ido levar uns papéis para ele assinar, a mando de alguém que não sei bem quem era. Ele me disse que sua assinatura era desnecessária, mas foi muito simpático durante os poucos momentos em que esteve comigo. Falamos sobre alguns assuntos dos quais não me lembro bem além de que disse o que eu queria sem me preocupar com protocolos nem ser interrompido por ninguém e ele riu e me deu opiniões que pareceram também muito francas. Ficou seu sorriso, a boca feliz alegrando meus olhos.

Depois, me conduziram a uma sala acarpetada onde fui esquecido por horas assistindo numa tela imensa a documentários sobre o desaparecimento do Polo Norte, o fim da eficácia dos antibióticos, a descoberta de um sistema solar espelho feito de matéria escura e o atentado terrorista de um grupo de extremistas islâmicos que explodira o Cristo Redentor durante as Olimpíadas, no Rio de Janeiro. Em um dos intervalos, soube pelo noticiário que o Papa havia levado um tiro e estava morto. A porta da sala se abriu de repente. Uma freira entrou correndo, ordenando que eu a seguisse. Os muçulmanos tinham invadido Roma e estavam implodindo tudo. O Coliseu acabara de ir ao chão. Estátuas centenárias viravam pó. As ruas eram um cenário de juízo final. Enquanto atravessava um longo corredor atrás da freira, alguém agarrou meu braço ordenando com voz grave um urgente “Wake up!”

Abri os olhos e vi o Bowie com seu sorriso inglês e olhos bicolores. Ele me disse qualquer coisa que não entendi e me ofereceu uma xícara de chá. Sentei no sofá, olhei em volta e não reconheci nada. Bowie puxou uma cadeira na mesinha próxima e fez um gesto para que eu me sentasse ali. Obedeci.

Falando animadamente em seu inglês mais que britânico, Dave pulava de um assunto a outro, as frases cortadas pelas gargalhadas graves ribombando entre suas estalactites nicotinadas. Eu não prestava atenção no que dizia, só na sua boca. Não conseguia tirar os olhos dos dentes britânicos. Ele ainda não havia alinhado os dentes tortos, nem clareado tudo, o que eu achei muito distinto. Nos tempos atuais, pelo menos aqui no Brasil colônia, quem tem dentes assim é visto como pobretão; se o proprietário da arcada tem dinheiro e não se importa em corrigir o suposto defeito, será praticamente tomado por criminoso. Julgo revolucionários esses opositores do totalitarismo estético patrocinado pelos gigantes da cosmética global. Dentes perfeitos em um velho parecem diminuir sua idade, mas a boca do Bowie era mais Bowie em desalinho.

Uma campainha soou. Bowie pediu licença e foi atender. Sozinho de novo, comecei a ouvir latidos que foram aumentando. Senti uma gosma morna descer sobre minhas pálpebras. Passei a palma de uma das mãos sobre elas e, quando voltei a abrir os olhos, estava no sofá da sala da minha casa sendo lambido pelo Dumbo. Percebi que tinha dormido bastante assim que dobrei o pescoço e senti aquela fisgada típica do mau jeito. Levantei, peguei a coleira do cachorro e o levei para passear. Eram quase onze da noite e eu tinha tido aqueles sonhos matrioska outra vez.

Abri a porta do elevador, já na garagem, e saí. Vozes conversando em uma língua que parecia árabe. Dois homens parados ao lado de um sedã preto silenciaram, me encarando, quando passei por eles. Atravessei a fileira de carros, subi em direção ao portão até alcançar a escada que levava à entrada de serviço, onde encontrei o vizinho libanês parado, gritando com a judia do quarto andar. Dumbo começou a latir. Mal pisei na calçada, uma explosão vinda do subsolo do meu prédio chacoalhou tudo. Uma sequência de explosões depois, meu edifício e dois prédios vizinhos haviam implodido. Cego no meio da poeira, só conseguia ouvir os latidos do Dumbo, que me puxava com força, indicando a direção a seguir. A última coisa de que me lembro é da mulher de burca que saiu da névoa marrom, me abraçou e gritou “Wake up!”