Esc

quebrou

O excesso de estímulos ainda vai nos salvar pelo cansaço, devolvendo-nos a nós mesmos. Será tal a demanda para dar conta das exigências do mundo que, simplesmente, vamos desistir delas. Um belo dia, você vai acordar sem energia alguma e pensar nisso. Não vai querer tomar café, nem ligar para o trabalho explicando porque não irá. Mais tarde, quando for fazer a barba e der de cara com seu olhar sem brilho no espelho, pela enésima vez se lembrará de que vive uma vida de autômato, mas desta vez haverá alguma esperança lá no fundo das pupilas e um sentimento novo e inexplicável invadirá o entorno.

Como se estivesse compreendido alguma equação durante o sono, notará a diferença da luz do sol no banheiro, o barulho dos carros lá fora não poderá te impedir de ouvir um passarinho que pousou na janela e agora canta para outro pousado na janela vizinha. Você não quererá saber as horas, mas estranhará que o gerente geral, seu superior, não te ligou até agora para saber onde você está. Se vai se atrasar muito para a reunião. Se pode fazer um favor no caminho e comprar bateria para o seu aparelho de surdez que já está apitando e ele, mais uma vez, se esqueceu de deixar baterias de emergência na gaveta da escrivaninha “logo hoje, que o vice-presidente para a América Latina e Caribe estará na reunião!” Você sorri no meio da sala, quando lembra do rosto lindo da estagiária de olhos cor de caramelo e ri alto de uma das perguntas idiotas que ela, garota inteligente, te fez para demonstrar algum interesse naquela chatice toda que é seu trabalho, o dela e o de todos os espectros cinzentos que cruzam o prédio de vidro da corporação diariamente em seus ternos bem cortados, arrastando a existência atrás da cenourinha de burro das metas que levam a um carro novo e mais caro e mais potente e mais silencioso e surpreendentemente econômico, que eles jamais poderão acelerar até o limite dos mais de 400 quilômetros por hora. Você mal abandonou a condição de robô e já sente nostalgia dela.

Sem a mínima vontade de se inteirar das notícias, pega o jornal na porta da frente evitando ler o texto da manchete que grita sobre o novo escândalo político-econômico pelo qual ninguém será punido. Não como deveriam. Mas não tem como evitar passar os olhos pela constatação óbvia do título na matéria menor, abaixo, que aponta, em vermelho sobre uma foto colorida, que a superbactéria já está entre nós. Respira aliviado. Não há mesmo solução para o impasse planetário em nosso atual modo de produção hipercapitalista.

– Se é pra acabar, que acabe logo.

No momento preciso em que sua frase – ribombando nas alturas dos quatro cantos das paredes na imensidão da sala em cujo chão gelado seus pés descalços pisam – volta amplificada pelo eco aos seus ouvidos recém-despertos, você se lembra com alívio e frustração de que este é apenas o seu primeiro dia de férias. E se abandona na poltrona italiana – a preferida para leituras longas – e abre o jornal e as pernas e aquele sorriso cheio de sarcasmo e tristeza que só os androides bem-sucedidos conseguem esboçar.