Virt.you.all

pop

Vários. Vinham em bando, disparados. Corpo de garrote em cabeça de morsa, os sabres enormes brancobrilhando me ofuscavam como sóis em miniatura deslizando na minha direção. Aquelas estrelas que atrapalham a vista quando se toma um chute no saco ou a gente fica de pé de repente depois de um longo período sentado. O mesmo desespero da dor profunda que sabemos que vai passar depois da eternidade de sofrimento infinito em seus dois minutos de duração.

No meio da tundra gelada, ao vento corta-cara, eu lá. As gotas congeladas no momento em que escorriam pelas pontas da vegetação como um desenho da Disney, entretinham meus olhos ao mesmo tempo em que reforçavam a metáfora do momento. A familiaridade de infância que te acena com a proteção do entretenimento disfarçado em arte. Eu ali, congelado. Embebido no momento frio. Sozinho. Desabrigado e fodido no pior dos sentidos, o do estupro impiedoso da realidade fedorenta.

Com a maior vontade de cagar, fecho os olhos apertado. Agachado espero os cornos rasgarem minhas vísceras. Seguro a cabeça tentando dispersar os fiapos de pensamento e, de repente, o estrondo vindo do alto estremece tudo.

Viro o rosto para o céu embotado, arregalados todos os olhos, incluindo o do cu, que deixa escapar um pouco do chorume do terror. Sobre mim, a gigantesca nave flutua baixando rápido. Abre a escotilha em seu umbigo, me suga na corrente de ar morno dentro dela.

Preso em uma espécie de gelatina, fico parado junto com o tempo. Oco. Pensamento zero. Deve ser assim que os ovos se sentem antes de saber se serão galinha, comida ou lixo orgânico, devolvendo cálcio à terra. O bafo de granja de Clarice Lispector surge na memória olfativa. Minha barriga dói. Os gases e meu coração acelerado parecem as únicas coisas vivas em mim. A luz de uma porta que se abre. Um vulto nem feminino nem masculino, com duas cabeças, surge na soleira.

Finalmente!

Acabava de vencer a prova mais difícil do ALUCINADOS, o jogo interativo em que participantes semiconscientes imersos em universos paralelos vivem aventuras hiperrealistas via YouTuTuBr – Terminal de Telepresença Audiovisual Brasil. Eu, Jair Nascimento e Silva 107, o grande ganhador! Não acreditava. Primeira vez na vida ganhando alguma coisa. Não acreditava! Mas acontecia. E justo comigo, que relutara tanto em fazer parte daquele reality circo.

Assustado e ainda tonto recebi do apresentador o implante magnético no antebraço esquerdo, que iria liberando cinco milhões de $urreais em consumo durante o ano, cortesia do banco iRReal, megapatrocinador do canal de maior acesso da América Anglo Latina. Tava no topo!

As gêmeas xifópagas transgênero Mar1 & Joan4, assistentes de palco do apresentador virtual Sísifx S4ntx, me abordaram em uníssono pedindo a gentileza de uma gota de sangue para o DNA-confirmação no cadastro do meu CPF.

— Desempregado sortudo, hein?! Sabia que somos contratadas por registro único? Seu Sísifx carrega no HD mais de um século de experiência na utilização da CLT-5 em seu favor, explicou ao pé do meu ouvido a sussurrante Mar1.

Enquanto plasmaescaneavam-me, um crescente de fisgadas foi tomando minhas tripas à medida que minha consciência voltava. Quando dei por mim, estava deitado no chão do estúdio. E só então me liguei na farsa pró-audiência.

Na tela tríptica no canto do palco me via sendo devorado vivo por aqueles seres híbridos em cadeia intercontinental, enquanto minhas visões da entrega do prêmio e as piadas de Sísifx Santx eram exibidas simultaneamente.  Fui o mico número 1, registrado pelas neurocâmeras nas últimas 1.500 horas exibidas pelo canal. A audiência delirava! Ganhei meus 15 minutos de meme e uma vergonha que me acompanha até hoje, mesmo já tendo sido esquecido na ciranda incessante da memética. Pelo menos, fui recordista em alguma coisa, ainda que sem um centavo de $urreal. Depois dessa patetice, YouTuTuBr nunca mais.

Agora, estreei no negócio da política. Recebo um bom dinheiro para gerir uma comunidade contra, uma neutra e outra a favor do impedimento do presidente brasileiro em exercício neste trimestre.

Estamos no Fakehook, a nova febre mundial entre as redes sociais, em que as pessoas mantém até três perfis distintos com o mesmo nome e ficam jogando xadrez consigo mesmas. O argumento mais votado pelos seguidores, acumula pontos e leva prêmios dos patrocinadores: bancos, igrejas, empreiteiras e o próprio Fakehook.

Até postos de trabalho de alto escalão são oferecidos aos que se destacam. Enquanto uns são promovidos, outros são demitidos por justa (?) causa. É o admirável mundo novo forjado no universo paralelo onde ser ou não ser – e até mesmo, em aparente contradição, ocupar os dois polos acumulando ainda um terceiro ao mesmo tempo – não é mais questão relevante.

Como afirmou, outro dia, um dos avatares do meu candidato de centro, as décadas passarão e o ser humano mudará para permanecer o mesmo, até que um asteroide nos transforme em poeira cósmica.