Retrato

desodorante

Nós que almoçamos juntos aos domingos, que já nos amamos, gozamos, gargalhamos e choramos solidários. Nós, que por vezes nos odiamos, imaginando no outro um demônio, na frente do espelho. E mudamos o corte do cabelo, trocamos de roupa, alternamos estilos, tomamos partido e experimentamos novas formas de transcendência.

Nós que saudamos o sol, sorrimos à lua e vendemos a alma. E mendigamos no farol, maldizendo a um deus inventado a culpa de nos colocar onde estamos. Nós, os tolos românticos, que só queremos amar, mas nos limitamos ao sexo e a algum entendimento. Nós que mentimos à luz de velas, que morremos de medo, juramos por qualquer coisa que pareça sagrada e sentimos espasmos ao mínimo olhar de curiosidade do objeto desejado numa rua estreita de um final de tarde abafado no centro da cidade velha.

Nós que votamos, peticionamos, reciclamos, palestramos e contamos nossos mortos. Nós, os úteis, belos e saudáveis cidadãos a perseguir o ideal democrático, que na certeza de sermos contra tudo que está aí caminhamos a favor do vento, dentro da hora mais escura e nos jogamos no vazio buscando alguma coisa que não sabemos o que deva ser.

Nós que obramos, urinamos, devolvemos e somos suturados. Nós que contabilizamos cada centavo dos bilhões, abismados. Saudamos a tecnologia, a medicina, a filosofia, o teatro do absurdo, os buracos negros, as anãs brancas e a alta gastronomia à mesa de alguma aldeia nos confins de um ainda medieval país nos arrabaldes da gloriosa comunidade continental.

Nós que estendemos a mão que de repente é puxada pelo traidor que existe embaixo de cada cama. Que desperdiçamos a vida acalentando esperanças e urdindo fé, e perdemos a certeza e o caminho na bifurcação da estrada.

Nós que nadamos, corremos, postamos, caçamos, cantamos, dançamos, atuamos e ganimos palavras de ordem. Nós que assinamos documentos e poderíamos ter sido tudo no quase nada que nos restou lograr. Nós, que do pó nos erguemos ansiando pela hora de ao pó voltarmos, sonhando com o descanso eterno que nos é devido, contentes pela representação mentirosa das frases mal-ajambradas na fantasia do epitáfio.

Nós, que vagamos pela vida como se ela fizesse sentido.