Fim de Caso

shirtless sexy cowboy holding a saddle in a field

Faz tempo que a tristeza me pegou e eu fico assim, jogado, pensando em nada. O tempo passando e eu ali… o telefone de vez em quando toca, toca, toca… mesmo sabendo quem é, não atendo, não. Só se for negócio, coisa importante. Daí que eu levanto, pego o violão, tiro umas notas. Logo me enche o saco. Eu paro.

Vou andar pelo pasto, às vezes dar uns mergulhos no fim do dia, que faz um calor de passar mal nessa terra. De noite, enrolo um cigarro e deixo tudo afundar no silêncio enquanto o céu gigante me engole. Outro dia, uma bola de fogo riscou o céu bem ali embaixo, perto da linha do horizonte. Até te mostrei, lembra?

Na minha vida tudo tá no lugar onde eu sempre quis que estivesse, mas satisfação não tem muito mais desde que essa doença começou. Isso é que tem me tirado o sono. É como se a vida tivesse me escapando das rédeas, sabe, Dolores?

Pensava que o tempo curava. Cura tudo, né? Sempre foi assim. Mas não. Ficar aqui na tua companhia e na do Noel, do Ataúlfo, sempre foi bom. Sempre preferi cavalo a gente. Agora, parece que não tem sido mais boa ideia. Lembrar do Lupicínio, então… me põe mais triste ainda, me voltam umas coisas doloridas que não gosto nem de pensar. Sei que tem coisa que a gente precisa aceitar, mas isso eu não consigo. Sinto tanta falta dele, aquilo é que era garanhão.

Você sabe que música sempre teve um poder muito grande em mim, né? Às vezes, mexe comigo de um jeito estranho demais. O estado desse toca-discos bichado contribui também. Rádio eu não ligo porque, como você sabe, essas porcarias que tocam por aqui eu não gosto. Depois, me agrada o som da agulha raspando no disco. A aspereza, os arranhões e cicatrizes de uma época em que qualquer canção tinha mais poesia e sentimento do que essas de agora, do que a vida estúpida da maioria das pessoas que eu conheço. A coisa só piora, Dolores. Ainda bem que eu tenho a música, sua companhia e a dos outros cavalos.

Vô Otávio tinha razão, nasci no século errado. Tenho buscado conforto na leitura dos livros daquela biblioteca que doaram às traças quando ele morreu. Televisão não ligo mais. Tento me apegar nas coisas sólidas. Pena que nem isso tá dando conta. As coisas mudaram bastante nesses anos. O tempo passa e a gente junto, né, Dolores?

Até eu, de uns tempos pra cá, dei de pensar em me mudar pra cidade. Mas é tanta gente, tanta complicação. Sabe que continuo não confiando muito em gente não, né, Dolores?

Você me conhece desde pequeno, sabe como eu sou. Gosto de fazer as coisas do meu jeito. Não preciso de cidade mais que uma vez na semana. Sei lá, deixar a fazenda na mão de alguém não ia ser a mesma coisa, mesmo o Ribeiro sendo bom do jeito que ele é. Já foi assim antes. Meu pai nunca quis saber disso aqui quando o vô morreu, lembra? Ele achava, ainda acha, que eu deveria casar…

Pra quê?

Essa angústia não é falta de ninguém. É coisa minha. Sempre foi. Tá enterrada na minha vida de um jeito que vai me acompanhar pra sempre. Quem é que sabe? Até o dia da minha morte. Quem é que sabe? Eu não sei.

Não adianta não pensar nisso, Dolores. Não adianta, eu sei que não. Mas o que vou fazer sem você? Encontrar outra igual eu não vou. Se você me deixa agora, quem vai me fazer companhia, Dolores? Quem é que me aguenta? Pra quem vou dar meu amor? Com quem é que eu vou ter prazer de verdade, hein?!

Você não pode morrer, Dolores. Não pode. Não pode não, viu, sua égua da porra?!

Não me deixa desse jeito. Não deixa, Dolores. Não vai embora. A gente não nasceu pra viver longe de quem gosta. Agora eu só tenho você. De verdade mesmo, só você… Dolores, não vai… se você for, a solidão vai acabar comigo.