Distopia

botox

Você está morrendo. Todos os dias. Mas você não percebe. A chuva cai, refrescando. O sol faz você suar. As nuvens te acalmariam se você olhasse para cima em vez de procurar por aplicativos de relaxamento no computador de bolso.

Clarice apagou a mensagem do Biscoito da Sorte virtual, ajeitou os óculos escuros e ficou olhando para os números que iam mudando no visor da parede de aço do elevador. No trigésimo andar, ao atravessar a porta de vidro do consultório, a recepcionista avisou que a consulta atrasaria. Sentia-se desconfortável, ameaçada pelo ar que sentia pesado.

Ela sentou-se, pegou o phablet, ajustou o fone de ouvido e abriu o Clodovil Conselheiro, um aplicativo com discursos de autoajuda de uma réplica virtual do falecido apresentador de TV, uma espécie de biscoito da sorte um pouco mais prolixo.

De noite, as estrelas vêm te lembrar sua insignificância e o quanto a vida é única; você não tem tempo de perceber porque os prédios não deixam. Os compromissos sociais não deixam, os programas de televisão e as redes sociais nas quais você desfia suas tolices e seu falso moralismo em longos textos anódinos que ninguém lê mas curte para ter as opiniões insignificantes curtidas de volta, não deixam. O filho que você fez – e do qual, em momentos raros de lucidez, se arrepende de ter gerado – tampouco permite. Seu marido, sempre cansado e com trabalho por terminar, não exige mais sua atenção porque não tem mais tempo nem para isso. Aliás, ele tem sim, mas não para você, se é que você me entende. Seu treinador pessoal rouba o que resta do tempo que você pega emprestado do seu sono, que já era de apenas seis horas, com a promessa de que vai tonificar seus músculos, cada dia mais flácidos. Quando escurece, você acende a luz. Quando engorda você para de comer. Quando entediada, sai para um café com as amigas que são tão suas amigas quanto você é delas, neste mundo plástico, moldado em interesses comezinhos. Você não se veste mal, mas não anda nada bem, meu amor.

Irritada, Clarice fechou o vídeo e decidiu navegar em uma rede social para esquecer um pouco de si e das dores que sentia no ouvido esquerdo. Na timeline de uma amiga, leu o que imaginou ser mais uma indireta para ela.

Você na verdade está morta. Embalsamada entre produtos, serviços, preocupada com o consumo de bateria do telefone móvel que é menor na nova versão a ser lançada e que você vai precisar comprar, porque tudo que você vê e quer, você consegue. Não importam os meios. Você consome enquanto é consumida e acha que a vida é isso. Tem toda razão. Sua vida é só isso. E não poderia ser diferente para alguém que foi criada pelas expectativas dos pais, cidadãos exemplares. Com dentes bem alinhados, currículos impecáveis e nenhuma angústia à vista do mundo. E você corre contra o tempo, não porque a vida esteja escorrendo, mas porque está tudo atrasado e o resto do tempo que você tem vai evaporando entre aulas de mandarim, ioga, pós-graduação e os inúmeros procedimentos estéticos aos quais você precisa submeter-se para garantir que sua aparência, que você julga ser ainda de uma jovem, mantenham-se inalterados.

Fechou a página. Pensou em jogar o I Ching, mas teve medo.

A dermatologista com o rosto deformado por preenchimentos supostamente rejuvenescedores, responsável por transformar teus zigomas e lábios num freak show ambulante como os dela, não conseguia disfarçar a preocupação, enquanto examinava os pelos duros que erigiam em tufo do ouvido esquerdo.

“Clarice, vou ser sincera com você. Nunca vi isso. Esses pelos parecem agulhas de aço. Orelha hoje é coisa fácil de resolver. A gente tira essa e coloca uma impressa. Vou encaminhar você a um colega, especialista em novas doenças. Por hora não se assuste. Posso te garantir que você não tem botoxilite nem câncer do preenchimento. Fique tranquila.”

Duas semanas depois, o marido a encontrou morta na garagem, em meio às ferragens retorcidas do que restou da bicicleta do filho, atropelado semanas antes. Da porção esquerda de seu crânio, destroçado pela bala de uma espingarda de caça dele, saltavam nacos do cérebro desequilibrado que finalmente lhe dava sossego.

Imaginando-se a primeira paciente brasileira de Metalosis Maligna – doença descoberta em um documentira de curta-metragem na TV – que teria se desenvolvido a partir do implante coclear para reverter a surdez do ouvido esquerdo, Clarice meteu a bala bem ali. As agulhas, fixadas por sua acupunturista – em seus delírios, dermatologista – para auxiliar a combater as crises agudas de esquizofrenia persecutória, haviam estimulado o surto psicótico. Os mistérios do mundo que tanto a fascinavam quanto perseguiam agora repousavam na dimensão mais confortável que alguém pode almejar. Nada mais poderia ameaçá-la.