The last dance

salaespecial

Encontrei o R. no boteco do Marinho numa tarde gelada no começo de junho. Abandonei na hora o Seu Arlindo, que quase não tinha mais fígado e estava pele a pele com o desencarne, e fui com ele pra casa. Dali em diante, passei a acompanhar seus passos, bebendo, fumando e gozando junto com ele.

R. gosta de um pé-sujo e de inferninhos cheirando a bolor e cigarro barato. Também prefere a companhia das putas mais rampeiras do lugar, que ele considera as únicas mulheres que merece nesse mundo. Curte bater em mulher, mas abafa a fofoca porque lá no fundo ele é um homem bom, só ele que não sabe. Também não sabe que isso não é dele. É só mais um coitado como tantos que andam por aí, seguido por uma legião de sugadores.

Mesmo com pouco estudo, R. fez dinheiro no comércio, mas sem a mínima estrutura pra lidar com tanta grana, foi esfolado por todo tipo de trambiqueiro, desses que sempre aparecem no caminho dos ingênuos, e se fodeu bonito. Caiu na cachaça, se ralou na pedra e agora, de bar em bar, vai colecionando encostos da pior espécie. A família sumiu quando o dinheiro acabou.

Sou a melhorzinha que acompanha esse tonto. As outras três são qualquer coisa de deselegância nesse umbral sem fim: uma craqueira-quando-encarnada que sempre some se encontrar algum viciado mais cagado, mas acaba voltando pra ele depois que os infelizes começam a se tratar; a pilantra que casou várias vezes quando viva e enfartou todos pra ficar com a herança dos otários, morrendo na pindaíba, roubada pelo advogado; a ex-mulher de político, amante de bandido, assassinada quando o marido descobriu que o parceiro de negócios tava comendo ela.

Acontece que R. começou a frequentar uma igreja evangélica. Dessas daí das grandes, com programa na televisão e tal. No primeiro dia de culto foi a maior festa pra nós quatro, a gente zoou bastante ali dentro, pulando de crente em crente, na maior algazarra, mas a coisa depois ficou chata porque tem um espírito lá muito do ruim que acompanha o pastor e a gente percebeu que ele tava fazendo a gente trabalhar de graça pra ele. E ainda tirando o pouco de força que a gente conseguia sugar dos desgraçados em volta. Então, nós quatro decidimos tirar o máximo do R. antes de dar o fora. Bêbado e viciado é o que não falta nesse planeta do cão.

Vamos dar uma surra de pedra, cachaça e pito nele, durante uns dois dias seguidos. Eu, que fui bailarina, atriz e modelo na última vida, bolei até coreografia e fiz as vagabundas decorarem pra gente fazer com esse mulambento fedido. Dei o nome de dança da morte. Só curtição, um lance tipo dança zumbi, porque acho que não é dessa vez que ele sobe, não. Foi convidado pela vizinha a ir a um centro de Umbanda onde a luz é muito forte pra nós. Sei – por causa de um cavalo meu que foi lá e me tirou da vida dele – que nós quatro não vamos aguentar quando ele pisar naquele terreiro.

Agora, dá licença que a festa vai começar. Se quiser, pode acompanhar aqui embaixo.