Like a Rolling Stone

gentesOs amores, que até então sempre traçavam elipses em meu caminho, começavam a mudar sua trajetória. Agora eram retas. Pontos encorpados que se iam desenvolvendo, tomando forma ao estabelecer comunicação uns com os outros.

Eu assistia pela primeira vez, como criança maravilhada pela novidade, ao descobrimento dos sentidos, nocauteado pelo grande amor. O amor da minha vida. Um sabor que eu nunca provara. Experimentava essa novíssima geometria, vislumbrando a porção luminosa das coisas à luz plena do dia.

Stella… o nome gritando dentro de mim, fazendo eco nos pelos, me guiando os movimentos. Desde aquele amanhecer sob os cobertores ensebados debaixo de um viaduto, quando meus olhos cerraram-se para o caos enquanto saboreava pela primeira vez o agridoce da tua boca secreta, virei escravo do visco de mulher feita que a vida não conseguiu amargar.

Ah, Stella! Imaculada divindade dos meus dias. Suas manias e cheiros, o descabelo, os rascunhos de ideias malformadas na voz enrouquecida. Alma do meu corpo.

Nada mais me importa. Esqueci a matemática, as roupas pelo chão. O orgulho foi parar na sarjeta onde te encontrei pela primeira vez pipando crack. Por tua causa, já não tenho mais pesadelos. Dane-se a massificação do mundo, agora contemplo gráficos e indicadores econômicos como postes de luz na madrugada, nas folhas do caderno de economia que rolam ao vento pela alameda. Vendo com a mais absoluta imparcialidade o que o capitalismo possa reciclar e pôr preço. Passeio pela Babel financeira como se nada acontecesse. Na rua, a cantilena dos miseráveis não me toca a consciência como antes. Tudo é uma coisa só. Percebo que o coreutas da bolsa se lhes igualam em desespero. A vida é mais. Muito maior que essa pantomima de compra e venda.

O que é nosso pela eternidade que nela não se desmanche, me diz?

Eu quero amar, Stella. Eu quero a melhor droga que eu já provei. Morrer disso. Do teu lado. Grudar minha história de coxinha classe média que desceu cada vez mais baixo pra subir um pouco na vida, se formou em economia e foi berrar na bolsa de valores, na tua que começou nos altos de Pinheiros e foi rolando em farrapos Anhangabaú abaixo, São Bento, até ver a Luz, até o quase afogamento no Tamanduateí numa enchente de verão.

Nosso reino, minha estrela, também não é desse mundo. Nossa casa sem telhado fica dentro de um coração disparado.