Jacques

pizzaspira

Um pescoço alvo, forte, cruzado de artérias e feixes de músculos. Totem protegido sob fios que cascateiam dourados da cabeça como plantas projetadas no abismo de uma garganta altíssima, de onde se avista o vale e o mar e montanhas bem além.

A presença daquele maciço de carne pede que o toque. Não me atrevo. Dentro de um ônibus lotado, mal daria para contê-lo entre as mãos; não mais que segundos, antes que o dono surpreso partisse para a agressão reativa.

Estivéssemos no último vagão do último metrô num domingo à noite, juro pelo cadáver da minha mais alta esperança de que me lançaria àquele tronco de mármore e o apertaria até a sufocação do dono, até meus dedos imprimirem o colar arroxeado ao seu redor. Até minhas mãos quase se tocarem. Tenho mãos grandes.

Desfalecido o proprietário do pescoço, afundaria meus dentes com prazer na carne almiscarada pelo medo, úmida de susto pânico, do suor gelado das vítimas distraídas.

Quebraria depois o tubo robusto só para ouvir-lhe o plec da desconexão, descendo no terminal mais próximo, não me esquecendo antes de ter o cuidado de arrastar o corpo da vítima para debaixo de algum dos assentos (imaginando que não existissem dentro do vagão as câmeras de registro que às dezenas também se espalham pelos cantos das estações).

Não, seu delegado, não notei que havia alguém debaixo de um dos bancos. Estava perdido em conjeturas quando entrei; depois apaguei completamente a realidade ao meu redor, mergulhado na leitura das páginas do suplemento de cultura do jornal, o caderno especial de domingo que eu sempre gostei tanto e ultimamente anda uma porcaria”, poderia responder, notando o pescoço flácido do delegado. A pele acinzentada de quem fuma demais, mantém-se sedentário demais, sem sol e tomando café além da conta para seus 57.

Ah, que pena em te deixar, meu pescoço equino lavado em água-de-colônia (sinto aqui atrás, a dois bancos de distância, o fougère do pós-barba que o vento da janela escancarada espalha). Desço aqui.

Puxo a cordinha dezenas de metros antes do ponto. Acaricio o fio azulado que se prestaria bem ao estrangulamento do belo pescoço e piso a calçada com um nó esquisito na garganta. E ando entre as pessoas admirando tantos pescoços quanto sentindo repulsa. E ouço as conversas  que emergem do oceano sonoro dos carros. E a noite fecha o dia.

Meus olhos cobrem-se de fina camada de lágrimas. Debaixo d’água, a imagem baça de um pescoço trêmulo, tépido e vibrante à pressão das minhas mãos que momentos depois, cansadas de tocar o mundo, ajustarão o laço da corda ao meu próprio, como faz com a gravata de segunda a sexta, determinando a eternidade desse domingo triste.

O relógio da sala. A luz da rua filtrada pela cortina velha a incidir sobre um braço moreno abandonado no chão a dois metros do meu corpo branco em movimento sincrônico. Pra lá e pra cá, pra lá e pra cá… o pêndulo marcando a circular do tempo que já não existe para minha consciência. Pra lá e pra cá, pra lá e pra cá… na rua, a multidão segue sala de cinema afora, espalhando-se pela alameda úmida, pescoço a pescoço, como gado em direção ao matadouro de segunda-feira.