Um País

avenida

Dentro de mim encontrei outro. E nesse outro, mais um. Desde então, alma fendida regurgitando cópias à semelhança de uma matrioska, lá sempre haveria um terceiro e quarto e quinto, um pesadelo minimalista em sucessão. Só que ao contrário da bonequinha russa, embora semelhantes em forma, cada eu era diferente do anterior em essência. Às vezes, de maneira radical.

A esperança nas possibilidades, as boas surpresas, uma satisfação difusa, o tédio dos dias entre os quais me arrastava, fizeram dessa fissão compulsória vício. Oficializava-me meu próprio Colombo, pois já não sentia caber no continente que me parecia destinado. Não conseguia me contentar em ser o velho eu de sempre. Afirmava de mim para mim — e para quem quisesse saber — ser a sede de autoconhecimento meu moto perpétuo. E de que não precisava de mais ninguém, não tinha vontade de conhecer ninguém, tampouco saudades de quem quer que fosse.

O costume de procurar personalidades alternativas pelos meus cantos encontrou tal população que, de pessoa, passei a multidão, bairro, até emancipar-me em pequeno povoado. Perseguia em segredo o status de Estado, e me perdi em ser tantos que já nem sabia direito quem era (fora, teria sido, ainda seria?). Cheguei a pensar em esquizofrenia. Com dois pés de chumbo na realidade, meu único desequilíbrio é o populacional. Já quase não caibo em mim.

Um dia, numa dessas operações de busca apreendi um sujeito que tinha absoluta certeza já conhecer. Não me lembrava direito de onde, sabia, entretanto, que o conhecia. E muitíssimo bem, dado o sentimento de familiaridade intensa que me despertava. Só desvendei o enigma durante o diálogo que travamos em múltiplo solilóquio. Entre terror e alívio, era eu mesmo. O original, o centro naquela barafunda, presidente da republiqueta da egotrip, deus sem igreja, rei de um império sem Carta Magna a pouco de ser linchado pela dúvida das minhas outras tantas quinas a me julgarem o impostor que viera para confundir e terminar com a festa da reprodução assexuada.

Seria destinado a nunca me encontrar?

Como a população continua a crescer, venho mantendo-me por perto. Às vezes me cansa tanto controle e previsão. Ontem mesmo eu disse que ia comprar cigarros e quase não voltei para os meus tão distraídos outros eus que nem lembraram que há duas décadas não fumo mais. Assessores de porra nenhuma. Percebi o cabide de empregos que me tornei; prebendas e sinecuras sem fim de mim para mim.

Mudei de ideia. Voltei. Aqui estou. Mandei dizer a todo esse povo que fico. Até quando, prefiro não saber. Mas eu sei que alguém aqui dentro sabe; e se fizer a mais vaga ideia de qual deles, será seu fim. Só não mando cortar a cabeça porque ela não existe, fisicamente. Ainda assim, não me iludo, o impeachment ronda meu destino com sinete de moira. Daqui só saio para entrar para a história. Sabendo que será o fim da história. Que este eu, todo nós no momento, não passa de absolutamente ninguém.