Aeromoça

vista aérea

Quando me tornei comissária de bordo realizei um sonho de infância. Um sonho que eu nunca entendi direito. Muitos anos de voo depois, num dia bonito de verão, cruzando o céu azul sem um fiapo de nuvem, olhando a terra lá embaixo direto da cabine do comandante, percebi que ver do alto, de bem longe, de fora da cena, era o que mais me encantava. E era assim porque percebia a dimensão real no conjunto de coisas para as quais eu olhava. Sempre apreciei estar à margem, como observadora.

Amo observar, tanto quanto comer. E adoro, de paixão, apreciar o alimento antes de comê-lo. E as pessoas comendo. Fico lendo as pessoas, imaginando como serão na cama, como reagirão ao mundo no dia a dia. Acredito que a maneira como alguém se porta à mesa forneça pistas excelentes sobre as ações dela, sobre como ela é e no que acredita. Você não acha?

Mas ver as coisas do alto e de longe também faz a gente pensar que estar ali poderia ser bem melhor do que realmente é, e a gente se engana. Pensa que estar lá, naquele lugar em que não está, seria melhor, quando poderia ser muito, mas muito pior mesmo do que possa parecer. Já aconteceu com você?

Relacionamentos, por exemplo, vistos de fora podem parecer perfeitos. Invejáveis, quando não estão ao alcance de um braço estendido. Ou uma coisa que a gente acha que quer, porque ama a ideia do que ela representa e não a coisa em si. E quando a temos, ou surge a oportunidade de consegui-la, ali, dançando do nosso lado, percebemos que nunca a quisemos de verdade. Funciona como o consumismo. Uma maneira de tentar preencher algum vazio. Saciar uma fome que não passa porque é de outra coisa. E não é fome. Absolutamente.

Como assim, falo difícil? Soo meio literária, né? É cacoete de quem estudou letras e ama ler. Que bom que você também curte, eu adoro. E sim, eu sou exigente mesmo. Bastante até. Você não é? Eu quero uma relação bacana e quero me divertir nessa história, senão não tem graça. Você já ficou com uma mulher maravilhosa? Tive um caso com um colega belíssimo. Alto, forte, bem-educado. Pensei que fosse gay como boa parte dos meus outros colegas, mas não. Ele gostava muito de sexo, mesmo não sendo lá grande coisa como ele pensava que fosse (essas pessoas mais bonitas que a maioria geralmente se acham, né?). Também fui percebendo que não era aquele homem especial que eu imaginava. Era um rapaz mimado típico. Deixava toalha úmida na minha cama e ainda sentava nela com a roupa que tinha chegado da rua. E eu odeio isso.

Não gosto de gente sentando e rolando na minha cama com a roupa que andou por aí, acho anti-higiênico. Pra isso existem cadeiras, poltronas, sofá, o chão. Prefiro que nela só se deitem convidados de sono. Ou de sexo.

Ah, eu sou igual a você então. Que coisa, né?! Também durmo com dois travesseiros. Um sempre entre as pernas, quando não tem perna de outra pessoa ali. Tem dia que prefiro não dormir com nenhum (travesseiro, pernas etc.). Gosto de variar. O cotidiano me sufoca. Não, isso não tem nada a ver com fidelidade. Sou fiel como um cachorro. Uma cachorra, na verdade (risos). Sou uma cachorra fiel.

Não me incomodo em dormir fora da minha cama. Durmo onde encosto e em qualquer lugar. Aliás, adoro dormir fora de casa. Tenho sono fácil, costumo lembrar de cenas dos sonhos com riqueza de detalhes, mas do roteiro, só fragmentos. Durmo nua. Dizem que às vezes eu ronco. Não consigo dormir com gente que ronca. Ruídos me fazem despertar, luz não.

Gosto da cama com o lençol trocado todos os dias, perfumando o quarto. Isso é o que eu mais amo nos hotéis. Em casa, como fico pouco, tento manter esse costume. Tenho muita roupa de cama em casa. De mesa, de banho também. Tudo da época de noivado. Sim, cheguei a noivar, acredita? Mas ainda bem que não caí na besteira de consumar o que seria a grande burrice da minha vida. Mas isso te conto outra hora, que esse relato tá ficando muito longo. Tá parecendo entrevista de emprego. Você não fala muito de você mesmo, né? Essa foto é recente? Nossa! Não. Prefiro assim. Melhor até ser um pouco grande do que aquela coisinha minúscula. Ai, pra mim, tamanho é documento sim, viu?

Meu sono é assim desregulado mesmo. Esses fusos horários são uma loucura. Você disse que queria conversar aqui no Whats, mas só eu é que falo? Se não fossem esses programas de bate-papo, essas redes sociais, olha… antigamente, eu gastava uma fortuna em telefone. Não, eu não vou me masturbar pra você, não! Desculpa, gato. A gente mal se conhece. Não sou louca de mostrar minha cara na câmera. Só foto. Ou de corpo ou de rosto. Os dois juntos, jamais. Outra hora a gente continua, então. Adorei você. Outro beijo.

“Como tem trouxa nesses aplicativos de foda, né, Beth?”

“Ele acreditou nessa conversa de aeromoça metida a pensadora?”

“Não dava pra eu contar que sou caixa, né? Homem é tudo igual. Pensou que fosse me comer com aquele papinho de trabalho na bolsa, de que gosta de literatura, com pinto grande e carrão. Eu conheço esse cara. Ele é motorista de um cliente lá do banco. Já atendi várias vezes. De pobre já basta eu, amiga. Mas bem feito pra mim, quem mandou estudar letras, né? E tem mais, não é só o carro que não é dele, esse pinto também não. Já viu moreno de pau rosadinho?”

“Ai, Carol, coitado do cafuçu!”

“Coitado mesmo. Um ignorante, tadinho. Mandei essa “foto aérea” do pote de sorvete e ele acreditou que era a Cordilheira dos Andes!”

“Você esperava o quê de alguém que conheceu no Badoo?”