Duas bolas, sem cobertura

passarinho

Faz tempo que nos encontramos aos monossílabos, os olhos mais eloquentes que nossos bons dias. Tanta reticência que o espaço vazio entre nós é quase um estádio. Está tão cheio de coisas que a gente não consegue distinguir e de outras tantas que pensa que sente, que acha que decifra até se pegar, de repente, em microiluminações —  luzinhas pendendo feito enfeite de Natal, ainda na portaria do edifício decadente por pura preguiça dos funcionários beneficiados pela vista grossa do zelador –, e se lembra de que a realidade é uma questão particular.

Pois bem, neste preciso momento em que algumas coisas nascem aqui dentro e outras tantas morrem, do bairro vizinho vêm chegando as nuvens negras, o ar já cheira a ozônio. Sei que é passageiro porque é verão em pleno inverno, eu não presto mais atenção na moça do tempo. Tem coisas que perdem o sentido com a idade, a previsão do tempo é uma delas.

Um dia você vai descobrir que amar alguém é como escovar os dentes após as refeições, manter as unhas bem aparadas, comer legumes ao vapor, um hábito saudável que todos deveríamos cultivar, mas sem caretice nem radicalismo porque chocolate é tão gostoso quanto um bom hambúrguer com coca-cola.

“E aí? Quer tomar um sorvete comigo?”