Carmem

boca

A maneira como o lábio superior imbrica-se ao de baixo, levemente projetado, vai além de criar o magnetismo irresistível que sublima qualquer tentativa de raciocínio, dissolve todo recalque, mastiga os medos. Convida ao agora-já-aqui-mesmo que bambeia pernas e certezas.

Pouco me lembro dos primeiros momentos alugados da dona; cara e pernas esfumaram, ficaram o nome e a Boca.

Aquela Boca, goma rosada, cerrada, lábios enormes a oferecer reentrâncias, saliências esculturais de carne feita para sucção. Para ser mordiscada em longos períodos de adoração oscular, nutrindo a mais irracional forma do querer, a do corpo escravo de enroscar-se em outro, orientado ao amálgama, ao esquecimento de si.

Zumbi guiado pela Boca, sei que forçava os lábios trêmulos à película carmesim quando a ideia de levá-la para uso exclusivo coloriu tudo. Peguei na mão daquela vontade e me deixei conduzir ao seu quarto mais penumbroso.

Destituído, fiquei pele a pele com ela, chocando dentes, travando línguas até hora alta.

A Boca besuntava-me em néctar enquanto eu dardejava as saídas secretas aqui, ali, mais ao sul. Antes do terceiro suspiro já estava dentro, varando madrugada em saborosas convulsões. Nunca metonímia alguma me deu tanto assim. Não me importava a mulher aquém, queria apenas aquele pedaço de tempo bom pelo período máximo que se me permitissem.

Quando a vi cruzada por fios de mel que pendiam, e logo mais lotada da gosma branca a espumar o que não cabia, perdi o que ainda era juízo.

Obcequei tanto naquele molusco magenta que permiti que me levasse o que fosse, em troca de mais e mais momentos-Boca.

Foi morar em minha casa. Comer do bom, dormindo no melhor. Em banhos demorados perfumava a carne preguiçosa e alimentava os cabelos que um cabeleireiro penteava diariamente em domicílio com os melhores produtos. Sua dona engordava. Eu deixava que fizesse o que fosse seu querer conquanto não me apartasse da carne almofadada.

Sou senhor respeitável e barroco bem no cerne. Todo píncaros e vales, quando quero, preciso. Tenho urgência de. Não sou homem de meios tons. À independência financeira contraponho dúzias de coleiras de tudo quanto é espécie. Não sei nem fritar um ovo, já que nunca precisei.

O peso das responsabilidades do meu cargo na embaixada fui deixando pelo caminho como as peças íntimas que a dona da Boca largava pelos corredores do palacete que alegrava às gargalhadas vermelho-e-brancas.

Ressentimento e tacanhice espalharam via telex que em Madri havia um brasileiro eclipsado por uma Boca, e o Ministério D’além-mar exigiu retratação em caráter de urgência urgentíssima.

O mundo amargando a primeira grande crise de ouro negro, comunistas devorando criancinhas, todo espaço a ser conquistado e um estroina em verde e amarelo esvaindo os recursos do país-incontinente. Noventa milhões em ação pela felicidade de uma única Boca.

Eu jurava (cheguei a me ajoelhar), que se o general me mandasse buscar, eu não abandonaria meu tesouro jamais.

E ele veio. Primeiro enviou assessores, depois, aproveitando uma visita ao país, em pessoa.

Para meu sossego ― e um certo laivo de ciúme, plenamente justificado ― a Boca lambeu pés, mordeu coxas, mamou mamilos, sovacos, pescoço. Errou pelo baixo-ventre e se perdeu em costas largas e quentes até atingir o planalto dos ombros de onde soprou a maresia que concluiu o encanto.

Estávamos protegidos.

                                       Boca-peixe

                                       Boca-porca

                                      Boca-bonsai

Homenageei num hai kai concretista a Boca-delícia.

Quem tem Boca vai à Roma, e aquele portal d’entra-e-sai ambrosia oralizou por nós resistindo com bravura até ganhar cinco estrelas ao generalíssimo da vez. Logrou contrato vitalício de imunidade e prerrogativas que vigoraram aurora democrática adentro, pelo tempo possível do alongar de um sonho.

Eu e Boca consumimo-nos nas chamas carameladas da luxúria, ardendo ao esgotamento.

Fui afastado com ótima aposentadoria. Ela desapareceu numa noite de carnaval, no sambódromo carioca, no torvelinho de um camarote VIP.

Nunca encontrei par. A dobrar o Cabo da Boa Esperança, contento-me com próteses orais de sex-shop que coleciono às dezenas, adquiridas mundo afora. Quando a vontade me desatina, junto as preferidas em uma valise, alugo um quarto de motel e uma dublê que as manipule e abandono-me feérico, gemendo recordações.

                                        Boca-peixe

                                       Boca-porca

                                      Boca-bonsai

Ai, de mim!