PENISCEIA (a panaceia peniana do Dr. Albert)

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A campainha tocou novamente. Desta vez, só podia ser o carteiro! E era mesmo. Arranquei o pacote das mãos do pobre homem, que deve ter me classificado mentalmente entre os cães raivosos da vizinhança. Mas afinal: em minhas mãos trêmulas, dentro um simples envelope forrado, estavam as fabulosas, as incríveis pílulas do Dr. Albert!

Imaginei esse cientista abnegado em seu laboratório, testando pacientemente ao longo de décadas. Um homem incansável com uma nobre missão. Anos de tentativas e erros. Ah, os erros. Vergonhosos, como os pênis de camundongos transformados em vaginas. Assustadores, como o nascimento de pênis extras por todo o corpo de pobres coelhinhos.

Mas enfim, eureka! E o Dr. Albert comemorou com a assistente, a secretária, com a esposa, com a vizinha, com o sobrinho. Sua verga altaneira, ereta, polegadas e mais polegadas. Além de cientista, um patriota: chegou a mandar confeccionar uma pequena bandeira americana que podia hastear em seu próprio mastro. Em datas comemorativas, o Dr. Albert fazia uma pequena cerimônia, com a banderinha tremulando em seu mastruço latejante, ao som de uma marcha militar. Eh, magnânimo, bom doutor! Por uma quantia módica, todos agora podiam adquirir não apenas um, mas DOIS frascos cheios de sua miraculosa invenção.

DOIS Frascos… Agora, pensando bem, por que dois?

Porque o outro fazia os testículos incharem, completando o quadro com um par de bolas poderoso que fazia jus à vergasta sob a qual descansavam. Mal as pílulas chegaram às prateleiras, foram consumidas com voracidade pelo público masculino, ávido por incrementar os órgãos em tamanho e potência.

“Se as mulheres podem inflar os seios com silicone, por que não conceder aos homens opção equivalente, não vivemos a era do Megamass?” argumentavam alguns, “pois os gigantes, mesmo que não o sejam pela própria natureza, se atraem”.

E a moda pegou. Como nada é estanque nesse mundo movido pelo capital, outros segmentos foram atingidos. Primeiro o das cuecas, que ganharam novas modelagens com espaço triplicado para conter bolas e paus vitaminados, seguido pela indústria fonográfica, que ainda não agonizava, com inúmeras músicas de sucesso instantâneo, além de Hollywood, que não tardou a faturar com a onda.

Arquitetura e mercado de construção civil incorporaram os excessos, passando a criar espaços mais amplos, com a volta do uso das paredes curvas e das abóbadas e obeliscos à onda. O design também refletia a tendência, objetos bojutos e longos espalharam-se por todas as salas modernas do planeta.

Entre os adolescentes — proibidos pelos orgãos de saúde pública de utilizar o medicamento devido a supostos efeitos colaterais ainda desconhecidos – multiplicavam-se fãs ardorosos do invento, que adquiriam clandestinamente na mesma academia em que compravam os também proibidos anabolizantes.

No gueto gay, onde tudo é motivo de festa, todos passaram a usar a neca-anfeta. Best-sellers de autoajuda também foram lançados, explorando a febre da hipertrofia escroto-peniana: “Por uma vida maior”, “Crescendo sem medo” etc. Teses universitárias surgiam às dezenas: “Rimando amor e dor: uma leitura feminina da questão da hipertrofia sexual masculina”, “Tamanho e Documento. Novas perspectivas sobre a inveja do pênis” entre outras tantas tolices tratadas com verniz acadêmico.

Quando a patente, liberada, franqueou à malta acesso livre a genéricos de toda sorte, nove entre dez homens já haviam utilizado a panaceia peniana do Dr. Albert ao menos uma vez na vida.

Como o que faz a felicidade do mercado em geral é uma desgraça ao meio ambiente, um grave problema de desequilíbrio ecológico configurava-se. Estaria a raça humana caminhando para um processo de mutação em seus espécimes machos, cada vez mais hiperdotados? Como isso se refletiria nas relações entre homens e mulheres?

De repente, do interior do Texas chegou a notícia explosiva. O membro de um usuário havia adquirido um formato esquisito e… encolhido! Parecia-se com um pênis de porco, algo como um saca-rolhas. E o inferno astral do Dr. Albert — e de grande parte da população mundial — estava só começando.

 

* escrito em parceria com Sergio Kulpas, que redigiu os quatro primeiros parágrafos.