Madonna

nuclearnigthmares

Ferreirinha sempre odiou Natal, Páscoa, dia das mães, pais, da avó. Tudo que cheirava a mistura de ceia hiperbólica com perfumes de projeção exagerada reviravam seu estômago. A hipocrisia compulsória que o apartava do prazer de trabalhar até mais tarde, de segunda a segunda, para empurrá-lo cara a cara com a linhagem familiar mais bruta era pura claustrofobia. Ressentimento. Mágoas abafadas em mutações radioativas. O Natal era seu Chernobyl particular.

Corria dezembro em 2008 e ele foi se distrair no camarote VIP do show de uma pop star que passava pelo Brasil. A visão em detalhes das mãos da dita o apavorou com tal força, que teve de deixar o estádio. Lembrava a bisavó tirana estendendo-lhe a mão para a bênção na noite feliz da infância, quando ele ainda não sabia o quanto de Papai Noel era invenção da coca-cola, nem sobre o sutil apelo comercial nas relações de troca-troca com os primos mais pobres e, ainda menos, que envelhecer não é necessariamente ruim, a não ser que você seja um produto.

O horror pop é a pior das torturas”, sentenciou em voz alta, enquanto dirigia o SUV de volta para casa, aliviado. Tomando o silêncio do music player desativado, Assis Valente teimava em lhe fustigar a memória auditiva em loop dentro da cabeça: Já faz tempo que pedi, mas o meu Papai Noel não vem…

A canção, unida ao mal gosto dos enfeites coruscantes distribuídos pela avenida, mais a escumalha tirando fotos, mais o frenesi dos consumidores alucinados a atravessar a rua com sua miríade de pacotes lhe causaram tal pânico que, em desatino, ele dobrou na contramão a primeira esquina que apareceu em sua frente, invadindo a rua ocupada por uma massa de ciclistas que a subiam à esquerda fantasiados de Papai Noel.

Pedaços de tecido vermelho e branco, uma roda de bicicleta contra o vidro fumê, gritos infantis e o letreiro de um ônibus que desejava Boas Festas foram as últimas coisas que viu antes de entrar no túnel de luz em cuja extremidade a bisavó lhe estendia a mão ossuda para a benção.