Quatro estações com Terezinha

gatinhos

 

O primeiro:
Não me disse mais nada. E desse nada foram crescendo coisas, como plantas que brotam em lugares inesperados, num canto de calçada, no cimento rachado da quadra de esportes abandonada. Uma história equilibrada em oximoros e suposições de sentido cambiante. Lua flutuando no silêncio. Brasa dormida de outro planeta. Fragmento de qualquer coisa. Era verão. Eu ardia por ele. Dias depois, assim mesmo, sem dizer palavra que trouxesse sentido, tirou a roupa, estendeu-se na cama arrumada e me pediu um beijo. Sei que é inútil tentar entender porque virei as costas e saí daquele jeito para não voltar mais. Lembro de caminhar com sede, na casa dele sempre faltava água. Nunca mais nos vimos.

O segundo:
Não veio do florista porque sabia que tenho alergia a pólen. Fez surpresa com o buquê de coisas que me trouxe quando abriu o peito e mostrou o que escondia ali. Se fosse materializar, seriam orquídeas daquelas raríssimas. Nunca tanta poesia nem cores me tomaram como naquele jardim. Fiquei ali parada sem entender (pra que querer entender tanto as coisas, meu Deus, pra quê?!). Mas fiz o certo ao tomar nos braços quem me oferecia tanta raridade e tanta pureza e varamos as noites de outono até o dia da sua partida para a Espanha. Continua a me escrever cartas belíssimas. Um dia, quem sabe, talvez.

O terceiro:
Largado como folha no vento. Vulto forte, destacado contra a luz coada batente da porta adentro, direto do passado. Verdadeira aparição. Tremia. Arroxeado de frio, esfregava um contra o outro os nós dos dedos grossos. Pedia perdão. Chorou. Enfiou-se sob os cobertores, implorando pra ficar. Só lembro os olhos cerrados com força, como se dor profunda o rasgasse, e da boca que se comprimia à minha em delicado desespero. Depois, foram os primeiros raios da manhã pelo quarto e um “bom dia, meu amor” com o café do jeito que ele sabe que eu adoro. Continuamos juntos. Já é primavera.