Ângela

asa — A mulher-sushi seria mais apetitosa em forma de mulher-picanha, oferecendo a maminha tisnada aos convidados. Imagine o maitre fazendo as honras da casa. ”Quem quer uma fatia, quem quer?”. “Eu”, responde um. “Eu também”, faz coro um segundo. “Ó eu aqui, hein? Não vai me esquecer!”, implora um terceiro. Imagine você, Agenor, todos famintos para provar o decantado mel da carne humana.

— Nossa! Tá machadiano hoje, hein, Zé Carlos?! É o índice Bovespa, né? Você sempre fica assim preciosista quando ele bate recorde. Já pensou em virar escritor? O problema é que você só produziria bem na alta, eh, eh, eh.

Agenor solta uma baforada de vapor d’água do Havana eletrônico, vira um gole de doze anos e fixa a bunda da garçonete que enquanto troca o balde de gelo o eclipsa ao amigo.

— Sabia que o Musil vivia de renda da bolsa?

— Isso é lenda, Agenor. Ele vivia era do espólio da família durante a juventude e da ajuda dos amigos e admiradores no final da vida.

— Lenda nada, li semana passada na página de cultura da Folha Mercantil, rapaz!

— E você acha que a fonte de onde a máquina tirou essa informação é confiável? Um periódico digital falido, produzido por agregadores de conteúdo da década passada?! E sem um profissional humano sequer… pra mim não tem credibilidade alguma. Mas me deixa continuar: a presa tá lá deitada. Fumegante. À Greenaway. Esperando ser talhada em fatias finas. A turba acotovela-se, ansiosa pelo momento de comer um pedacinho daquela mulher. O maitre-marido-promoter pede calma. “Gente, tem pra todo mundo! São 57 quilos de carne tenra, dá para um batalhão! Façam fila, senhores, façam fila e sirvam-se. Podem se lambuzar à vontade, minha mulher é toda de vocês. Mas sejamos educados, degustando de-va-gar.”

— Zé Carlos, acho que tô errado, teu negócio é cinema, eh, eh, eh.

— Enquanto a mulher é devorada pela horda de executivos, Oswaldo ─ esse é o nome do maitre ─ sorve tranquilo um cálice de jerez, filosofando: “Deus, que gente mais bruta. Animais! Parece que nunca comeram uma mulher na vida?!”, ah, ah, ah.

— Como falta originalidade a esses donos de restaurante, né, Zé Carlos? Sushi erótico? Tsk, tsk, tsk… Coisa do século passado. Imagina a maresia que a comida deve exalar! Você há de concordar comigo que combinar salmão e bacalhau é de uma falta de gosto tremenda, eh, eh, eh.

Zé Carlos enfia um pedaço enorme de carpaccio vegano na boca, concordando com a cabeça.

Agenor desliga o vaporizador do charuto. Vira-se para a garçonete que passa.

— Fecha aqui pra gente, anjo?

— Por que tão cedo, Agenor?

— Tenho compromisso agora à noite, coisa inadiável, Zé.

— Sei.

A garçonete, de volta, repousa um pequeno visor de cristal líquido na mesa.

— Veja só, Agenor, que tempos paradoxais. A mesma tecnologia que nos permite pagar a uma conta com impressão digital, também, praticamente, aboliu a escrita. Ninguém lê mais! Repare como um texto de simplicidade infantil mal consegue ser compreendido por grande parte das pessoas. O analfabetismo funcional grassa. A interpretação do mundo tá cada vez mais binária. Avançamos tanto pra regredir à barbárie.

— Não exagera vai, Zé Carlos!

— Não é exagero. Já tentou conversar com uma garota de 20 e poucos anos? É como se falássemos em línguas diferentes.

― Isso é verdade. Mas se deve mais à má formação que à tecnologia. O ensino tá uma merda não é de hoje. Mas os implantes educacionais logo serão acessíveis.

― Que adianta podermos implantar chips na cabeça, se poucos conseguem articular essas informações? Veja a falácia dos chips linguísticos, por exemplo. Uma pesquisa recente revelou que a maioria dos implantados não consegue dominar a nova língua. E sabe o porquê? Mal exercitam a orgânica, que dirá a sintética! E sem esse exercício a sintaxe não se desenvolve, Agenor. É como enfiar um dicionário e uma gramática inteira na cabeça, mas nunca abri-los. Não existe milagre.

― A tecnologia proverá o milagre.

― Fazer da ciência religião não resolve o problema, caríssimo. Como você bem sabe, a tecnologia também tem suas consequências questionáveis. Por outro lado, acho que as pessoas estão mais objetivas. Os ladrões, por exemplo, não se importam mais com os anéis, vão direto às digitais com o copiador de silicone.

― Tem razão, eh, eh, eh. Por falar nisso, quem toca piano hoje?

— Pode deixar por minha conta, ainda tenho o desconto VIP.

— Então vou indo, que eu já devia estar longe.

— Quer dizer que você vai me deixar aqui bebendo em companhia das musas?!

— Me desculpa, Zé, preciso me inspirar também, eh, eh, eh.

— Sabia que tinha mulher nessa história.

— Tem. Mas não é o que cê tá pensando. Pena que não possa te contar agora… mais tarde, eh, eh, eh.

— Ah, faço questão. Estou cu-ri-o-sí-ssi-mo!

— Até logo, Zé Carlos. Cuidado com os excessos, hein? Lembra da última vez!

— Agenor, as musas me acompanham. Protegem.

— Aí é que mora o problema, eh, eh, eh. Quem é que vai proteger essas moças?


O rosto da mulher brilhava à luz tênue. O cheiro do ambiente combinava uma enjoativa essência de morango com mofo e fumaça de cigarro antigo.

— Robert Musil. Morreu em 1942.

— Esse senhor era seu parente?

— Não, senhora. Foi um escritor.

— Mas o que o senhor quer com o espírito dele?

— Dicas de investimento. Dizem que aplicava na bolsa muito bem.

— Então vamos rezar um pai nosso.

— Olha, vou ser sincero com a senhora. Tanto tempo que eu não rezo… já nem me lembro mais.

— Não faz mal. Concentre-se naquele holograma de Jesus ali na parede enquanto abro os canais de comunicação com outros planos… Guten Abend!

— Herr Musil?!

— Jawohl


A garçonete despeja um pouco do uísque dentro do copo longo, lotado de gelo, enquanto um Zé Carlos avermelhado não para de falar.

— Meu bem, façavor, me traz mais uma porção de canapé. Você é casada? Sabia que, assim como as ações, existem dois tipos básicos de esposa? A ordinária, que é aquela que além de controlar seu dinheiro dá palpite na tua vida, e a preferencial, que coloca os lucros acima de tudo e prefere ficar de boca fechada. Hein? Machista coisa nenhuma. É a mais pura verdade, meu doce.

— Não acredito! Zé Carlos Cavalcanti, o homem de seis milhões de dólares!

— Pssiu… vai contar pro bar inteiro, Eder?!

— Quanto tempo, hein?

— Não faz tanto assim, não. Sente-se, beba comigo. Precisava mesmo de alguém inteligente pra me estimular a verve.

— Não seja por isso, meu velho.

— E o braço?

— Continua melhor que o original. Os movimentos têm precisão ninja! E o seu…

― Tântrico. Controle total. Só tenho problema quando bebo além da conta. O sintetizador hormonal fica fora de controle e minha masculinidade vai ficando, hum… digamos… potencializada.

― Entendo. Parece então que hoje você vai potencializar, né?

― Eu não bebi tanto assim não, Eder! Ainda.

— Tenho uma dica ótima. Saindo daqui, vou dar uma passada na festa de lançamento de uma marca de urinóis inteligentes, o produtor me disse que vão rolar umas gatas espetaculares. Coisa fashion. Tá afins? Libero a sua, sou VIP. Imagina que o dono da casa é um arquiteto maluco que tem uma estufa onde cultiva a melhor cannabis transgênica da cidade. Agora imagina o resto. Ah… e rola um sushi erótico, também. Já ouviu falar disso? Faz parte dessa onda revival do século passado.

― Sincronias do destino! Não só já ouvi como falava exatamente sobre isso com o Agenor agora há pouco.

― O dos rins?

― O próprio.

― Não acredito?! Um encontro de ciborgues. Urano deve tá fazendo aspecto com mercúrio retrógrado, só pode!

― Você e essa bobagem de astrologia. Olha, me faz a gentileza de falar na minha língua, entendeu? Qualquer uma delas. E o Agenor, vejo quase todo dia. Trabalhamos juntos, esqueceu? Nos conhecemos dos tempos do colégio alemão. Mas vamos ao que interessa: tem mulher bonita nesse negócio?

― Eu não disse que o cara que me convidou jurou…

― Então tem homem bonito também… mais uma dose antes da partida? Gelo?


O detector de dosagem alcoólica travou a direção do carro de Zé Carlos, acionando o piloto GPS, que o conduziu à rua tranquila onde encontrou vaga, estacionando sob uma das árvores centenárias que cercavam a muralha do casarão. O cyberpinto de Zé Carlos revirou de leve na cueca, enquanto ele atravessava o portão de acesso à festa.

A luz que iluminava o salão principal vinha de uma mesa imensa, no centro do cômodo, onde orientais nuas repousavam cobertas por sushis e sashimis. Poucos beliscavam. Passavam ao largo das garotas como a um caixão. Outros mosqueavam ao redor, fingindo interesse na comida; pegavam alguma coisa, para se afastarem lentamente. A maioria entrava e saía do salão pelas portas laterais, perdendo-se em corredores imersos em semiescuridão e electrojazz.

― Zé Carlos?!

― Ah, então era esse o tal compromisso inadiável, né, Agenor?

― Acabo de chegar de lá.

― E posso saber como você veio parar aqui?!

― Estava indo pra casa, o Leandro me ligou.

― O quê? Ah, não?! Ele tá aqui?

― É o produtor da festa. Vai dizer que não sabia?!

― Você sabe que não nos falamos desde a separação, não é?!

― Lógico. Por isso é estranho te encontrar aqui. Como você veio?

― Eder Arruda.

― O do braço?

― Exato. Tá por aí.

― Ele não sabe da tua história?

― Só do que aconteceu depois da cirurgia.

― Que saia justa, hein, rapaz!

― Sem ironias, hein?!

― Você tá paranoico demais, Zé. É só uma expressão antiga.

― Vamos, me ajuda a sair daqui sem ser percebido.

― Zé, a melhor defesa é o ataque, vai por mim. Vamos comer alguma coisa, relaxar, ver as quadrigêmeas, os trigêmeos…

― Os trigêmeos estão aqui?

― E as quadrigêmeas também. Foi por isso que eu vim. Estão na estufa, vão fazer um show da-que-les durante a festa.

― Nesse caso, quer saber? Foda-se o Leandro.

― Acho que você deveria resolver essa situação de uma vez por todas. Não é bom guardar rancor. Faz mal pra saúde.

― Nem quando se trata de alguém que tentou te matar?


Separados por pequenas baias, a longa fileira de urinóis alvejados por fachos individuais de luz que desciam do teto compunham, por reflexão, a fonte indireta da luminosidade nebulosa do enorme pavilhão. A fantasmagoria redobrava ao ecoar ambiente de passos, vozerio, burburinho líquido e de vagas de música que chegavam dos cômodos vizinhos. “A proposta”, dizia o decorador na entrevista exibida sucessivamente na minúscula tela de plasma grudada à porta de entrada do banheiro masculino, “é destacar a genitália dos usuários como obras de arte únicas, pois não existe um pênis igual ao outro. O foco da atenção sobre o jato da própria urina, que iluminada ressalta seus tons dourados como se fosse uma fonte de ouro líquido, é a expressão metafórica da riqueza interior que todo corpo carrega.”

Agenor mijava quando sentiu uma pontada na altura do rim esquerdo. Na cabeça, as palavras do arquiteto casaram-se às ouvidas do espírito do escritor. “A beleza dentro de você será sua fonte de riqueza”.

O espírito de Musil confirmara a versão do amigo, não entendia nada de finanças. Ele não perderia mais tempo lendo essas porcarias em sites escritos por robôs guiados por softwares ultrapassados. Zé Carlos sempre tinha razão. Sempre. Coisa incrível. Desde o tempo em que era mulher.


― Zé, eu não disse que tem coisa demais no ar hoje? Isso aqui tá cheio de ciborgues! O Danilo, do pulmão subaquático, aquele cara da voz sintetizada, casado com a garota das vinte línguas. O Davi, do ouvido-sonar. Todos aqui!

― Agenor também está aqui. Foi ao banheiro. Não o encontrou no caminho?

― Ah, é?! Cara, vou consultar as efemérides AGORA, não é possível!

― Eder, alguém já te disse que esse teu vício em astrologia é ridículo? Desliga esse troço, rapaz. Se um dos teus clientes te encontra consultando site de astrologia… que feio.

― Rapaz, soube de uma agora a pouco! Sabe quem foi encontrado morto hoje? Doutor Egídio.

― O cirurgião?! Você estava na estufa inalando, não é?

― Também. Mas não tô brincando não, Zé. Tô te falando a real! Um crime cabulosérrimo! Diz que tem a ver com a máfia dos brilhantes. Lembra daquela história que descobriram umas pessoas que carregavam pedras preciosas na vesícula sem saber?

― Meu Deus, foi ele quem operou o Agenor!

― Caralho, véi! Cê tá pensando o mesmo que eu?

― Odeio quando vocês inalam. O-dei-o! Além de tapados, ficam falando essas gírias antigas.


Mal apontou as opções no cardápio digital, a garçonete apareceu com o prato fumegando, aborrecendo Zé Carlos que acabara de ligar a cigarrilha de eucalipto.

― Hoje foi um dia difícil, ainda bem que está no fim. Ah, minha cabeça…

― Fiz a ressonância agora há pouco, Zé. São pedras comuns. Já até marquei a remoção.

― Agenor, você não se emenda, né? Se tivesse aplicado todo o dinheiro que gasta em misticismo, já teria trocado seu barco. Só você pra acreditar em conversa de espíritos. Riqueza interior… ah, ah, ah.

― Preciso multiplicar meus rendimentos, Zé. Você me ironiza porque não tem três ex-esposas e cinco filhos pra sustentar.

― Precisa é parar de inalar o vapor demoníaco desse canabinoide que você e o Eder gostam tanto.

― Nós e dois terços da humanidade.

― Não me venha com a velha piada pronta de que prestigia nosso melhor produto de exportação. Essa porcaria abobalha as pessoas. Deveria era aplicar seu dinheiro nisso como um negócio. Cultivo, exportação, sei lá…

― Por falar nisso, abobalhado fiquei eu ontem. Você usou o urinol inteligente?

― Claro. Precisava mijar em algum lugar, não é? Acho uma palhaçada esse negócio de medir nível de álcool e drogas do xixi e enviar para o telefone do indivíduo. Sei quando estou ficando alterado. Isso me basta. Não preciso de babá virtual. Esse produto será um fracasso.

― Sabia que essas informações também são colhidas por uma central de marketing de relacionamento, e que houve um bug e os dados de todo mundo foram parar no computador central da Secretaria de Saúde do Estado?

― Tá brincado, né, Agenor?

― Verdade! Já pensou se usar alteradores de percepção ainda fosse proibido?

― Isso é típico do canalha do Leandro. Tí-pi-co! Corto meu cybersaco se isso não foi de propósito! Aliás, fiquei pasmo ao saber que está vivendo com o tal arquiteto…

― Que tem um pinto minúsculo.

― Como você sabe?

― Frequentávamos a mesma academia de ginástica.

― Agenor, você é im-po-ssí-vel!

― Leandro é mais. Além do que fez com você, e depois com a Stelinha, ainda conseguiu acabar com a carreira daquela cantora, lembra?

― Não é diabólico? Entupir as parceiras de hormônio masculino à revelia das próprias para alimentar um fetiche?!

― Fui profético, não fui? Quem gosta de voz grossa e clitóris avantajado acaba chegando à coisa em si. Das lésbicas foi aos gays, eh, eh, eh.

― Que, por sinal, é uma moça. Notou a pele glabra dele?

― Deve estar tomando hormônios também. Daqui a pouco se opera.

― Não seja grosseiro, Agenor! E não misture as coisas. Você sabe que me descobri transexual, sou um F.T.M heterossexual. Nunca fui lésbica. É beeem diferente! E como dizia papai, que escolheu meu nome de batismo, “os anjos não têm sexo”.

― Desculpe, Ângela, quer dizer, Zé, eh, eh, eh, não resisti à piada.

― Voltando ao Leandro, ele não se moveu um grau na escala do arco-íris. Mudou sutilmente para continuar o mesmo vigarista de sempre. Ele gosta é de dinheiro. Dos outros, como você sabe bem. Dos ou-tros!

― O que eu sei é que estou pregado, Zé. Vou deixá-lo a sós com seu creme de palmitos. Nada como uma iguaria em extinção para nos recompor.

― Não se esqueça das reservas para o almoço de amanhã. Esses chinas a-mam feijoada de soja!

― Mas eu fiz isso hoje. E ainda separei uma caixa de OuroVerde para cada um. Vão levar o melhor maranhense que o dinheiro pode comprar.

― Nosso embaixador do cânhamo! Você ainda vai entrar para a história do comércio exterior nacional, Agenor. Não sei o que está esperando.

― Se os rins permitirem, quem sabe? Au revoir, monsieur Cavalcanti e Silva.

― N’ abend, herr doctor Fernandes.