Míriam

japa mala

Eu comi minha mãe. Tem mais ou menos um ano, foi num churrasco. Tinha tomado umas a mais e, quando eu fico assim, quando eu bebo além da conta, perco qualquer consideração pelo meu espiritual. Vou ficando primitiva, primitiva e, pá! Viro outra. Quase bicho. É culpa da cachaça. Foi tanta caipirinha, tanta caipirinha…

Quando eu era da Umbanda, às vezes recebia umas entidades. Eu não lembrava de nada, o povo que via é que me contava. Diz que não era coisa feia não, que eu ficava que nem criança, que eu dançava, cantava na maior felicidade, na maior alegria. Mas esse negócio de não lembrar me deixou assim meio com medo e fui um tomando pavor, fia… um medo de ficar doida, possuída, de não voltar mais. Então, daí, depois de uns tempos virei crente. Foi a época que eu parei de beber, de ver televisão e de sair, até os espelhos da casa eu joguei fora porque a vaidade é pecado e pode levar pro sexo que é mais pecado ainda, mesmo eu sendo virgem que nem eu sou. Isso lá pra eles. Por que pra eles você estar vivo já é um pecado, que nem na igreja católica aquele negócio de pecado original, mas eu não acredito nisso não.

Nesse tempo, eu renegava a Umbanda, falava que era coisa do capeta, mas eu falava da boca pra fora porque todo mundo lá falava isso também. Eles falavam muito no diabo. Coisa ruim, que o nome dele eles não gostam de pronunciar porque falam que chama, mas eles não param de pensar nele e isso não chama igual? Bom, eles falavam do demo o tempo inteiro só que sem falar o nome dele porque não podia. Com o tempo, fui vendo que aquela igreja não tava com nada, que aquela gente é que tinha parte com o diabo, mesmo sabendo que ele não existe, que são uns espíritos baixos, como ensina o kardecismo.

Eu acredito. Creio nas entidades do bem e do mal. Acredito que a gente vai e volta até cumprir nossa missão de virar uma pessoa melhor, e que tem que fazer muita caridade, ter muita compaixão pelo nosso próximo, pelo ser humano que está em piores condições que nós, né?

De evangélica, virei budista por influência de um colega lá da firma. Foram os olhos dele que me apaixonaram, uns olhos de santo. Ele é uma pessoa santa, parece uma moça de tão educado. Gente muito boa, sem maldade, sabe? Nunca ouvi um palavrão daquela boca. Nunca! Nunca uma reclamação, nunca uma fofoca. E ele é tão calmo e escuta a gente com tanta atenção. Ele usa um colar bonito com umas bolinhas de madeira e foi por causa desse colar que o assunto começou e caiu no budismo, e quando ele ficou sabendo que eu tenho essa coisa mística, essa busca, falou que ia me levar lá. E eu fui lá e gostei do lugar, das pessoas, da mensagem e de tudo, e mudei de religião outra vez. E me encontrei.

Pelo menos eu pensava, até o dia que esse negócio da gente voltar pedra, voltar flor e voltar vaca começou a me fazer pensar demais, e quando eu começo com isso de pensar demais eu penso errado, sempre foi assim. Ainda bem que sou concursada, porque tem época que eu vivo de licença, quando começa essa pensação demais eu tenho que parar. Já fui num psiquiatra por causa disso, mas não adiantou, eu tomava uns remédios que me deixavam pior, com sono, lerda. Joguei tudo fora e entreguei pra Deus.

Mas eu comecei a pensar no seguinte: que se meu pai, que Deus o tenha, que gostava tanto de cantar, reencarnou como passarinho e tá preso em alguma gaiola? E isso começou a me tomar o pensamento e eu comecei a pensar nisso muito e voltei a ver coisa e a ouvir como no tempo em que eu fui pra Umbanda.

Naquele domingo do churrasco de aniversário na casa do meu cunhado eu bebi bastante. Bebi e comi. Carne, cerveja e caipirinha. E de noite, na minha cama, lembrei da minha mãe que morreu ia fazer cinco anos dali a dois dias e naquela noite mesmo eu sonhei com ela e ela me falava que tinha voltado vaca, que teve uma vida linda pastando lá no meio do Mato Grosso, até que venderam ela pra um frigorífico e mataram, e parte da carne dela eu tinha comido naquele churrasco. Eu, minha irmã e meu cunhado. Pra senhora ver como são as coisas, como os destinos das pessoas estão misturados nesse e no outro plano. Daí que isso não me sai da cabeça mais desde aquele dia. Até parei de comer carne.

Continuei indo no budismo mais por causa do meu colega. Como eu te falei, ele é um santo, uma pessoa abençoada, ficar do lado dele já me dá muita paz. Mas agora não vou mais não, eu só venho aqui no centro pra tomar uns passes e levar uma água magnetizada pra casa que é a única coisa que tem me ajudado a afastar essa coisa ruim de mim. Eu gosto da filosofia do espiritismo, por isso é que eu voltei.

Eu penso que se eu tivesse um amor, um amor puro e verdadeiro, eu ia ter paz, mas parece que eu só consigo gostar das pessoas erradas nessa vida. Então eu dou meu amor pra Deus, rezo muito pra Jesus e pra todas almas perdidas sem luz desse universo. Eu rezo. Um dia eu sei que esse amor todinho que eu dou vai voltar pra mim maior ainda. E se eu conhecer outra religião que eu achar que vai ser boa pra mim eu vou nela.

Por que não?

Deus não é um só?

E a senhora, tem outra religião também? Tá aqui por quê?