Ciranda

9 de maio 2014

Começar é fácil. Mesmo que à força, sem muita vontade, inícios, em geral, são excitantes. Difíceis são os recomeços com sua sombra de frustração. Por mais novidades que apresentem, carregam sempre as olheiras do antevisto.

A dona de casa lavando e secando os mesmos copos, aspirando o mesmo tapete que foi limpo anteontem; a secretária diariamente catalogando os mesmos papéis, checando as mesmas contas, repetindo ao telefone a litania ditada pelos superiores eternamente em reunião; o burocrata judiciário reexaminando processos à luz de novos recursos; o vestibulando que não passa; a garota que não se desprende da impressão ruim do primeiro amor, tragicamente perdido, e o repete em cada novo encontro; aquele cujas férias são adiadas ad aeternum; o casal que decide tentar outra vez; o alcoólatra que tem uma recaída ou o pela-septuagésima-vez-ex-fumante.

O mundo, entretanto, gira no mesmo passo. O sol, repetindo seu caminho diário, convida ao recomeço com uma nota de alegria. A marcação do pulso em seu bate-estaca serve de referência às variações da melodia.

Recomeçar é chato. Um saco. Mas a semelhança aparente na sucessão com que os dias se encadeiam pode fazer toda a diferença quando vista por um ângulo mais aberto, no futuro lá na frente, semanas depois ou nos últimos momentos de uma vida inteira.