Confissão № 3

abacacéu

A obrigatoriedade da utilização de cinto de segurança estimulou-me à volta ao uso de camisas de tecido sintético, como o poliéster, que eu detesto. Nunca mais consegui sair de um carro com uma camisa de algodão impecavelmente passada. Ela sempre amarrota. A não ser que eu vá ao compromisso de trem.

Questões como essa, de aparente menor importância, são fundamentais na paisagem da minha existência. Como diz aquele ditado antigo, o diabo vive nos detalhes, ainda que vista Prada (perdoem-me a debilidade do complemento, não resisto a uma piada sem graça).

Pois eu e minha mulher fomos separados por uma camisa, mais exatamente por um vinco em lugar errado, percebido por meio do circuito interno de segurança da residência-bunker que ocupávamos (ela é apavorada com assaltos).

Sou perfeccionista. Gosto de tudo no lugar. Esta sempre foi minha única certeza. No mais, nunca soube direito quem era, nem porque fazia o que fazia. Ia fazendo o que achava que deveria fazer e só.

Um medo vago de me tornar outra pessoa do dia para a noite às vezes me tomava, depois desaparecia. Ainda que não soubesse objetivamente quem era, sabia que não deixaria de ser quem sempre fui. Não poderia evitar o que tinha de ser.

Pensava em todas essas coisas, nas possíveis consequências, no que deveria fazer e em que realmente tinha vontade. De alguma maneira sabia onde estava a verdade, mas não em como lidar com ela. No final das contas tudo se confundia tanto que parecia ser mesmo tudo mentira, tudo errado e fora do lugar de um jeito que à verdade não valia nada ser verdade.

Melhor se tudo não passasse de reflexo da imaginação. Melhor que não visse, cheirasse, sentisse aquilo tudo. Mas o que é que se pode fazer quando viver alguma coisa não só é o oposto do que se pretendeu como pode causar tamanho estrago que chega a tirar o sentido de estar vivo? Entre estar acordado ou adormecido parecia tudo igual. A diferença? Não existia mais. Essa era a minha vida.

Não tinha mais razão para procurar afirmar nada. Busquei a arma no fundo do guarda-roupa para extinguir todas as dúvidas. Pela janela, no horizonte largo, sangravam as últimas luzes da tarde e a certeza de que faria a coisa certa pairava. Encontrara, de repente, a verdade no fundo de minha vontade mais cara (desde as lembranças mais longínquas fantasio minha morte).

Ser ou não ser não mais me questionava. Ainda que não soubesse objetivamente quem era, deixara de alguma maneira de sê-lo. Não poderia evitar o que tinha de ser. Gostava que fosse assim. Estava feliz por ser alguém que não sabia nem se importava mais em entender porque e quem era.

De repente, era feliz. Me veio num lampejo que, às vezes, a realidade não é nada relativa. Talvez nem seja real. E afinal, que importância tem isso se a vida está rolando macia? Voltei a arma ao lugar de onde a retirara e me atirei à vida que recomeçava ali.