Conceição

La Mulata - Diego Velázquez

Os livros dispostos sobre a mesinha de centro sempre chamavam a atenção dela. Ao folheá-los numa tarde de pouco trabalho descobriu um universo multicolorido que nunca vira.

Gente, mas que coisa mais bonita, minha Nossa Senhora!

A patroa, quase sempre fora, jamais imaginaria a mudança que aqueles livros de arte que ela nunca abria poderiam operar na vida da sua empregada doméstica.

Conceição passou a vaguear pelas páginas dos livros diariamente. Limpava a sala correndo para, com o tempo extra, se entregar à fruição de Caravaggios, Botticellis e Kandinskys que descobria extasiada.

Dos coffee table books passou aos livros da estante da biblioteca do ex-marido da patroa, deixados para trás na separação. Começou com Tenda dos Milagres, título familiar que lembrava ter visto na televisão. De Jorge Amado para Graciliano foi indo, sempre pela literatura brasileira ― nomes como Dostoievski e D.H. Lawrence lhe impunham vago temor ―, até chegar a Machado de Assis que julgava um pouco difícil de entender, mas tão bonito (ela nem imaginava o que encontraria em Guimarães Rosa).

Conceição tinha ouvido musical. E a música toda do mundo estava ali, espalhada naquelas letras. Levava os livros escondidos na bolsa para ler no trajeto interminável das conduções que tomava até o barraco no Capão, depois devolvia sem que a patroa desconfiasse.

Conceição estava cansada das novelas sempre iguais da televisão, com seus diálogos inverossímeis e tramas bobas. Dos programas mundo-cão queria distância, vivia aquelas histórias o suficiente na vizinhança, muita desgraça pruma vida só.

O costume virou mania. A coisa tomou tal proporção que ela não conseguia mais controlar. Não trabalhava meia-hora sem parar para dar uma espiadinha nos jornais e revistas que empilhavam-se no banheiro da patroa, ao lado da privada.

Sozinha no mundo — de parente, só uma tia no interior do Paraná —, sentia que a vida ia indo e tudo que ela tinha era um barraco de dois cômodos e a perspectiva de se aposentar pelo INSS em pouco mais de uma década. A maioria das pessoas não tem nem isso, mas que é pouco é.

Do amor desistiu cedo. Só arranjei tranqueira. Lá no fundo, esperava por alguém, mas esperava como quem espera um ônibus depois que passou da hora e não sabe mais se ele vem.

Notando a mudança no serviço, a patroa a repreendeu, ameaçando demissão sumária caso queimasse mais uma peça de roupa.

— Glória Coelho, Conceição! Sabe o que é isso?! Paguei os olhos da cara nesse vestido e você me queima ele?! Semana passada foi uma blusa. Na outra, duas calças e uma saia. Que uó! Na próxima vou descontar do teu salário, viu?! Você vai ter que trabalhar de graça por uns seis meses, vai ver só!

— Desculpa, dona Vânia, desculpa. Vou prestar mais atenção.

— Acho bom mesmo. Acho ótimo! Melhor pra você. Emprego assim vai ser difícil de arranjar, viu?!

Naquele dia Conceição decidiu voltar a estudar. Até se achava moça aos 39, embora aparentasse 45. Precisava terminar a quarta série, abandonada pelo trabalho. Quem sabe um dia conseguiria fazer faculdade. Saúde de ferro e casa ela tinha. E tinha pressa, agora que redescobrira a capacidade de aprender. Enfiou na cabeça que a vida dela não seria mais esperar, e que se podia ler aqueles livros e entender, se podia ver aquelas figuras e sentir a beleza de um jeito que mexia bem lá dentro dela, que dava uma vontade de largar tudo e sair correndo, ela ia sair correndo. Ela ia a pé, descalça, mancando, ela ia até sangrando. De qualquer jeito, mas ela ia. Precisa ir, sentia. Não aguentava mais esperar.

Procurou, procurou, remexeu revistas, olhava jornais, lista telefônica, assuntou, perguntava, perguntava, ia perguntando. Foi indo até descobrir um lugar que oferecia de graça uma espécie de supletivo. Deu sorte, pegou a última vaga.

Quanto mais aprendia, maior o mundo se escancarava na sua frente. Conceição agora via nuances nas cores. Detalhes que nunca tinha percebido nas coisas. Cada ruído acrescentava um novo sentido ao que ouvia em volta. O jeito com que o silêncio se acomodava entre as palavras. Sentia que estava perdendo o medo das palavras. Desmontava as pessoas com os olhos como fazia com as histórias nos livros. Ali de onde estava viu o cenário da sua vida mudar tanto que, meses depois, trabalhava lá na mesma ONG, alfabetizando adultos, e aproveitava as oficinas de pintura e desenho, expressão corporal… queria abraçar o mundo como fosse possível.

Aos finais de semana, depois das faxinas que complementavam o orçamento, corria para o coral noturno. Conseguiu um violão usado do professor de música e compositor de sambas-enredo, voluntário lá na ONG, com quem começou a namorar e depois acabou se juntando. O estudo do instrumento a cansava. Não foi para frente. Ela gostava mesmo era de cantar.

Conceição não gostava de olhar para trás, mas se pegava pensando quanto tinha valido a pena ter sido mais ela e ficado sozinha, poderia estar vivendo com um cachaceiro dependurado, como acontecia com tantas outras que conhecia.

Teria encontrado o Walter? O destino era mesmo Deus quem fazia? E se não fosse? E por que ela era como era? De onde vinham aquelas frases que saíam da sua boca, que não pareciam ditas por ela? E como ela sabia de tudo aquilo que nem sabia que sabia quando precisava saber? E quem dava o valor pras coisas? E quanto dinheiro tinha no mundo? Sentia que, quanto mais aprendia, era como se soubesse menos. Queria saber mais, e seguia perguntando.

Tanto fez que, muito tempo depois, fundou a própria ONG para alfabetizar domésticas de todas as idades e encaminhá-las a outros estabelecimentos de ensino para que continuem seguindo até o curso superior.

Esse ano foi a vez dela. Entrou no curso de filosofia. Frequenta as aulas à noite. Senta bem na frente. Já se articula para participar do centro acadêmico. Tem tomado gosto pela política, quem sabe um dia ainda chego na prefeitura?

Dia desses, sonhando de olhos abertos no farol, na direção do Uno Mille do companheiro (sim, ela também tirou carta), ficou imaginando a cara da ex-patroa ― assessora de imprensa da atual administração municipal, e que a demitiu por justa causa quando ela queimou uma camiseta do Herchcovitch ― assim que ela, Conceição, empossada, anunciasse pessoalmente a rescisão de seu contrato de serviço.