Genésio

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Não, eu nunca trapaceio, Waldemar. Mesmo quando tenho oportunidade. Favor não confundir o prazer de vencer as dificuldades de uma partida que exija alto nível de habilidade com virtude, fair play, princípios éticos, retidão de caráter e toda essa baboseira que os arautos da responsabilidade social gostam de regurgitar em suas entregas de prêmios.

Sua vez.

Essas ONGs aí são tudo pra abater imposto, pra lavar dinheiro e polir a imagem deles.  É a merda do marketing, Waldemar. Esses papas de palestra aí, esses que ganham cinco dígitos pra falar o que todo mundo tá cansado de saber com outras palavras, eles todos gozam ao esfregar o focinho dos comuns na própria culpa, na vergonha de não terem nascido talhados pras altas virtudes. Depois vão repetir a ladainha no púlpito metafórico de uma tela de televisão, desfilando alegorias nas entrevistas em páginas amarelas da imprensa marrom, na internet.

Sua vez.

Fazem igual com os seus cachorros. Têm tesão em enfiar o focinho dos coitados na própria merda. Justificam a crueldade como ato educativo necessário pros bichos não cagarem fora do espaço determinado. Acontece que eles sabem que a gente finge que acredita, como o cachorro faz de conta que aprendeu só para não ser punido com desprezo ou coisa pior.

Sua vez.

Exibicionismo. Tudo teatro a demonstração de força moral desses dublês de cidadãos exemplares.  Já era assim na idade da pedra. Só que não tinha internet, televisão, igreja, partido político… é tudo blablablá, igual discurso de deputado.

Sua vez.

Você me conhece desde o científico, sabe que eu sempre fui metido a besta, mas admito que não sou melhor que ninguém. Sempre fui um merda. Isso que a vida faz com a gente, todos eles vão passar. É a lei da existência, Waldemar. A roda do infortúnio em que se repete nosso destino de animais autointitulados pensantes. Vai todo mundo virar merda antes de voltar ao pó. E pensar só piora a coisa. Melhor idade é a da inocência. Quando o pau vive duro, a gente escuta, enxerga bem e os hormônios enchem a cabeça da gente de sonhos.

Sua vez.

Nascer, multiplicar-se e morrer. A gente não se caga todo só no começo e no fim da vida não. No meio também. No meio faz muito mais! Não passamos de superbactérias que desenvolveram técnicas mais elaboradas de sobrevivência e dominação. Vai chegar a hora em que destruiremos o hospedeiro. Pena que não vamos estar vivos pra dar uma banana pra essa gente junto com o planeta. E agora, eu te pergunto: cadê a inteligência nisso tudo?

Sua vez.

Nosso mundo foi condenado no dia em que o primeiro hominídeo se arvorou sobre as patas traseiras. Ah, eles dizem, vivemos a idade de ouro da tecnologia, ela dá jeito em tudo. Merda, merda, merda, Waldemar! Tudo bosta. Tudo mentira. Todo mundo cagando cada vez mais fedido. Não tem tecnologia contra a merda que precisa ser cagada, Waldemar. Merda precisa sair. É simples. É da vida. E quando esse planeta for um grande saco de lixo não vai adiantar nada reciclar essa merda toda.

Sua vez.

Essa conversa de sustentabilidade, tem idiota que acredita. Eles é que mantém esse mundo do jeito que é. A realidade que a maioria se recusa a ver é produto de um negócio invisível: a fé. Que não se explica, não oferece certeza de nada, cujo sentido se completa na própria ausência, oco que de tão oco se preenche (sou praticamente um poeta, né, Waldemar?, fala a verdade). O homem só precisa de ter fé, eles dizem. Fé em quê? No que você quiser.

Sua vez.

É preciso ter fé, Waldemar. Fé! Arcados sobre os joelhos, engolir de boa vontade a porra que o mundo gozar na nossa cara, com fé num futuro melhor. Na eternidade justa. Na poeira cósmica. Na substância superior do caralho do ser humano. Fé. A panaceia universal. E viva a terceira idade, o terceiro setor e o terceiro olho do nosso cu! SESC-se quem puder!

Fé, Waldemar, é preciso ter fé! Eles mandam na sua vida, na minha e ainda saem bem na foto como os cardeais da filantropia. Eles têm a igreja do lado deles, têm o governo, os juízes e o Banco Central na mão. A faca, o queijo e todas as cartas. Eles fazem as regras do jogo. Eles dão as cartas. Mas são sacos de merda ambulante que nem todos nós. Tudo merda, viu? Tudo bosta.

Sua vez.