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Final de tarde, rush, ela sai do banho e o telefone toca. Nos últimos tempos tem sido assim. Oi… não, nada. Saí do banho nesse instante… eu também… de toalha. Do outro lado da linha, P. responde que está tudo parado, amaldiçoando a chuva. Sente-se observado. À sua direita, sobre uma enorme moto preta, alguém também enorme de gênero indistinto em um macacão de couro e botas até o joelho. O visor espelhado do capacete reflete o vidro da porta do carro que o reflete de volta em menor escala; nele, o reflexo do reflexo sucessivamente menor e menor. A chuva aperta.

Eu ganho o quê? P. oferece uma lambida do pescoço ao umbigo, contornando as curvas com a ponta da língua. O farol abre, uma loira retardatária dispara até a calçada. A moto quase a atropela.

Dada a largada no caos das gotículas em suspensão, o circuito familiar vai se revelando nos mesmos sinais de trânsito, esquinas semelhantes repetidas à exaustão.

“Tá de pau duro?”

Meia-bomba, ele responde, prometendo não esquecer do lubrificante que eles precisam tanto e acabou. Na toalha amarfanhada num canto da cama, a pequena mancha de sangue faz com que ela procure na pele do corpo por alguma espinha estourada e se depare com um arranhão no antebraço, um quase nada, pensa, enquanto liga o viva-voz, voltando o telefone à base.

De costas para o espelho em frente à cama, fecha os olhos e os fixa, no fundo da retina, no sexo imaginário de P., que do meio da estática conta que gostaria de colocá-lo na sua boca e pergunta em que lugar do quarto ela está. Na cama… sem roupa… aberta. Espera, deixa… deixa eu me virar pra cima… põe, pode pôr…

“É demais pra você?”

“É o suficiente.”

Descendo a alameda, os veículos se avolumam. O congestionamento incita à urgência. Zíper aberto, lábios externos de uma vulva de onde emerge o falo nada tímido que a mão esquerda empunha. A outra acumula funções entre direção, câmbio, volume do player etc.

Ela gosta de sexo oral, deixa-se conduzir para onde ele deseja. Escorrega a massa dos lábios contra o corpo carnudo a sua frente, pelas veias desce a viga mestra, acompanhando a calha que demarca a ligação do prepúcio ao início dos bagos marrons. Em meio a uma profusão de pelos, abocanha os ovos delicadamente, um a um, enquanto P. entra em uma rua perpendicular, menos movimentada.

No estacionamento, encosta o carro na primeira vaga que encontra. Desembrulha o resto do sexo e limpa com um pedaço de papel higiênico tirado do porta-luvas. O esperma melou a direção. Não goza sem me avisar, ela tinha pedido.

Bem aberta, de quatro, deslizando a palma das mãos sobre o lençol, ela deixa pender a cabeça e vê, entre suas pernas, na mão que a masturba com força, a aliança igual a que o marido não gosta de usar. Emparedada entre realidade e sonho, perde-se na fronteira embaralhada do gozo. G. vai sempre ao ponto. Conhece cada detalhe do corpo da mulher do companheiro de rúgbi.

Ela vira e sorri. G. sorri. A quilômetros dali, no carro, o marido também sorri, lembrando que ao chegar em casa vai encontrá-la na cozinha, envolvida no roupão, arrumando o jantar e, como sempre, ligeiramente encabulada. Demais, para quem acabou de gozar.

Dará o beijo de boa noite e seguirá para o banho; mais tarde, depois que ela for se deitar e ele restar em frente à TV, assistirá no celular às tomadas caseiras que G. captou em seu quarto, enviadas como a foda do dia, masturbando-se em sincronia e ejaculando no mesmo momento em que o amigo.

Na cama, vai rememorar as cenas mentalmente até adormecer.

Enquanto a madrugada atravessar o silêncio do quarto, dentro de um carro parado no sinal, G. consultará o celular.
Leve sonho, vais no chão a andares sem teres ser. És como o meu coração, que sente sem nada ter.*

No fundo da noite, um carro corta a avenida molhada devagar. G. abaixa a porta da garagem e entra em casa, também precisa dormir.

 

* (Fernando Pessoa – Quadras ao Gosto Popular – excerto)