Euclidiana

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Sempre soube que era gostosa. Quando ando pela rua atraio a atenção de todos, pareço imã. Os homens entortam o pescoço quando eu passo. Comentam. Alguns, mais desinibidos, mexem comigo; outros, grosseiros, até falam palavrão. As mulheres, mesmo as casadas, é claro que me odeiam.

Tenho um bundão redondo, coxões, seios bicudos, inchados, que sempre faço questão de explorar com decotes pra lá de generosos. Não sou boba. Sou alta, apesar de neta de índios. Dizem que me pareço muito com aquela cantora, a Baby. Não acho não. Deve ser por causa do cabelo, que eu sou muito mais bonita. Meu nome é Claudiara. Todo mundo me chama de Iara. Prefiro.

Há um ano mais ou menos fiquei desempregada. Trabalhava como assistente no setor administrativo de uma das filiais de uma grande rede de revendedores de automóvel e, com as vendas caindo, fizeram a tal da contenção de despesas que sempre fazem, começando pelos empregados. No dia que eu fui mandada embora, meu chefe e diretor de compras, seu Euclides, aconselhou que não me preocupasse. Estava vendo um modo de me aproveitar em outro cargo, que eu “era muito competente no que fazia” e tal. Essas conversas de patrão.

Ele tava era com medo que eu botasse a empresa no pau. Trabalhei ali mais de três anos, só tinha registro de dois e podia provar. Tenho um pai velhinho pra tomar conta, não posso nem sonhar em ficar sem emprego.

Na semana seguinte, fui acertar as contas e seu Euclides me chamou na sala dele e me fez uma proposta indecente. Só poderia pagar o que estava registrado em carteira, mesmo assim, em cinco parcelas! Ou, então, se eu aceitasse um acordo, metade desse montante de uma vez.

Protestei. Expliquei minha situação, mas ele disse que eram “determinações superiores” e não podia fazer nada e blablablá. Disse também que ficou tocado com a minha história e queria me ajudar de algum jeito, porque além de competente eu era “uma moça muito virtuosa”. Me convidou pra almoçar e discutir o assunto, e me aconselhou:

— A senhora é uma pessoa especial aqui dentro. Funcionária exemplar. Farei o que for preciso para ajudar. Mas ninguém dever saber, senão, ó… babau. Muito cuidado, hein, dona Iara, as pessoas nessa empresa, ó… isso aqui é um Butantã!

— É ruim, hein, seu Euclides? Não sou boba não!

— Faz o seguinte, me encontra no Kilochic lá pelo meio-dia. Tenho de visitar uns clientes no centro, vou estar por ali.

― “Concerteza!”

Fiquei zanzando pela Praça da República, olhando umas vitrines na Barão de Itapetininga, andando pela Sete de Abril pra passar tempo. Aproveitei que tinha dinheiro e comprei um sapato de salto bem alto, lindo, que eu já namorava faz tempo. Comprei também uns CDs de “3 real” no camelô. Adoro passear no centro de São Paulo.

Antes do horário marcado, eu já tava no restaurante.

— Que moça pontual! Elogiou meu ex-chefe, num perfume só.

— Aceita um copo de cerveja?

— Não tomo bebida alcoólica, obrigada. Mas aceito uma fanta uva.

Como já disse, não sou boba, imaginava o que o seu Euclides queria. Eu nunca tinha feito isso na vida, mas diante das circunstâncias e da proposta que ele me fez — passar a tarde num hotel ali do lado por cem reais mais uma roupa (escolhi uma saia linda pra combinar com o sapato), lanche e cinema —, tava mais que no lucro! Além, é claro, da promessa de tratar meu caso com prioridade e me pagar os direitos logo. Depois, ele até que não era de se jogar fora, apesar da idade, e eu também tava numa secura só.

Quando entramos no quarto ele não perdeu tempo, desabotoou minha blusa enquanto beijava meu pescoço e me linguava na orelha que nem doido. Caiu com sede nos meus peitos, mamando, querendo enfiar tudo na boca de uma vez. Me deu um banho de língua inesquecível. Seu Euclides entendia bem do negócio. Chupou meu dedão do pé com um tesão que eu nunca tinha visto igual em homem nenhum.

— Que pezinho delicioso, dona Iara…ai, ai, aiiii, como a senhora é gostosa… ai, gostosinha, ai, ai, uh!

Achei estranho que ele demorasse tanto pra tirar a cueca, mas já tinha pista com a falta de recheio. Confirmei quando ele pôs o negocinho pra fora. Tão murchinho que até deu dó. Seu Euclides, então, me pediu pra ficar de costas e voltou a me morder no pescoço.

Achei que ele tava me enrolando até que, de repente, senti um calombo crescendo no rego até virar uma jeba parecida com uma peça de salaminho. Quando me virei, tomei um susto. Um pinto enorme na minha frente. O velho safado usava uma prótese inflável, dessas modernas, automáticas.

― Olha só o que a senhora faz comigo, dona Iara. Olha só, ai, ai, ai, shhhh…

Daí foi loucura. E intimidade a gente não conta, né?

Só posso adiantar que ele pegou no meu pé e não largou mais. Literalmente, como diz minha amiga Gislaine. Naquele dia e em todos os outros. E foram tantos…

Além de gostar de pé, seu Euclides tinha outras taras que foi revelando com o tempo, como pedir pra usar a minha meia-calça. Depois daquele nosso primeiro encontro, minha vida ficou bem mais fácil e divertida. E ele cumpriu tudo que me prometeu. Tudinho!

Foi tão bom esse tempo com o seu Euclides… até peguei umas manias também. Por exemplo, de enfiar o dedinho bem ali no parceiro. No começo, meu namorado atual, que por acaso é meu novo chefe, não gostava nem um pouco desse negócio. Até brigamos por causa disso. Agora, meu bem… viciou.

Reynaldo é dono da distribuidora de bebidas onde trabalho como sua secretária particular. Mantemos nosso caso em segredo porque achamos mais gostoso assim (outra coisa que aprendi com o seu Euclides). Ele é um gato. Mais novo, mais bonito e muito, muito mais rico. Além de não ser casado, o que é uma preocupação a menos.

Amo meu trabalho. De paixão, mesmo. Estou ganhando bem, fora os presentes que ele me dá, mais tíquete alto e um bom plano de saúde pra mim e pro meu paizinho. Só que isso não é motivo pra eu deixar de defender meus direitos trabalhistas.

Acabo de entrar na justiça contra meus ex-empregadores. Sei que vai demorar, não tenho pressa. Tenho todas as provas, é causa ganha. Devagar se vai ao longe… e é muito mais gostoso (Ah, seu Euclides!). Quando esse dinheiro sair, vou poder realizar o sonho da minha vida de dar entrada num apartamento. Afinal de contas, uma mulher bonita e competente como eu precisa de amor, sim, mas também precisa, e muito, de ter a sua casa própria.