Paradise now

heaven

Havia um sol e o céu tão profundo que parecia não existir profundidade alguma que o separasse em camadas no espaço. Nada de certezas forjadas na arrogância ingênua de que tudo que é humano carrega características distintas do resto, com superioridade hierárquica sobre escamas e penas. Nada de ciência, consciência, transcendência. Nada além do momento. Luz do meio-dia.

Só a verdade do coração batendo pro sol. Sístole: cheiro de comida na brisa almiscarada. Diástole: o gato pulando o muro. Uma vontade girando as tripas enquanto outra se esgota, satisfeita. Na varanda, aos pés da cadeira, a versão diagramada dos fatos desmembrada em folhas que querem ir com o vento. No céu, as nuvens se desfazendo em desenhos que nada significam além de fiapos d’água flutuando no nada.

Há felicidade, sim. E a vida é curta e intensa, sim. E viver prescinde de deixar rastros, sim. Nada de testemunhas, nenhuma anotação. Explicações. Memórias (podemos incluir fotografias, essas garatujas digitais, quaisquer relatos, canções). Sim, a eternidade está inteira no momento. Heaven is a place where nothing ever happens.

Viver é ser feliz ou não e esquecer. Sejamos. Ninguém precisa saber.