2014

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Zé Armando quase caiu duro quando bateu os olhos no extrato bancário. Mais de R$ 59.000,00 tinha evaporado da conta corrente. Nas aplicações, a mesma coisa. Tudo reduzido a exatamente R$ 2.014,00.

Consultou outras contas, outros bancos. Em todas, a mesma quantia: R$ 2.014. Não era possível. Mas estava acontecendo. E logo com ele!

O impulso irresistível em apertar a tecla ANULA dez vezes seguidas não resolveria a questão, como sabia, mas aliviava uma tensão insuportável.

E ali ficou o desmonetarizado J. Armando C.C., 64 anos, tirando um extrato atrás do outro, entre cada dez apertadas da tecla ANULA, suando, suando, suando…

Costume do tempo em que era pobre — na realidade, ritual estimulado pelo transtorno obsessivo-compulsivo de que padecia —, a primeira coisa que fazia ao se levantar no primeiro dia do ano era correr pelos caixas eletrônicos, banco em banco, tirando extratos para verificar que nada mudara em sua condição financeira. Que tudo que havia sofrido para ganhar na vida estava lá, bem guardado, bem investido.

Não confiava na internet, mas não tinha medo em expor-se na rua naquele horário com a carteira recheada de cartões. Checava uma, duas, dez vezes, até ficar tranquilo o suficiente para voltar para casa.

Agora, teria de falar com os responsáveis. Infernooo! Como passava pouco das seis da manhã de um feriado no meio da semana, a simples ideia de ter de esperar mais 24 horas para fazer a consulta o paralisou de terror. Mesmo lembrando que havia também o telefone para resolver questões dessa natureza, e que o caixa vermelho dentro do qual estava dava acesso a vários bancos diferentes, sabia que não conseguiria se mover dali.

Passava das sete da manhã do mesmo dia quando, há centenas de quilômetros do caixa eletrônico em que Zé Armando sofria, Clarinda F. gritou de felicidade. Aos últimos R$ 37,00 que sacaria, juntaram-se outros R$ 1.977,00. Oh, glória!

Então, o pastor não mentiu com a promessa que se ela doasse à Igreja 10% dos caraminguás mensais que conseguia como auxiliar de limpeza, quintuplicaria seus vencimentos. E justo dois dias antes de completar 40 anos. Isso é que é presente! É benção. É glória. Oh, glória!

Mais ou menos no meio do caminho entre Zé Armando e Clarinda, o cracker Redtooth (Luís Carlos P.), criador do sofisticado programa viral Robin Hood ― com o qual, horas antes, infectara o backbone do Banco Central e através deste multiplicara-se penetrando no coração dos sistemas de todos os bancos e demais instituições financeiras do país ―, não cabia em si de felicidade.

Tinha realizado o sonho do falecido pai comunista em redistribuir o capital circulante no país da maneira mais igualitária possível. Já que o governo eleito em sucessivos pleitos, cujo partido afirmava representar o trabalhador, não conseguia ir além do discurso, ele se encarregara de inventar uma maneira de tirar dos ricos — apenas o que não estivesse em paraísos fiscais, por enquanto — e dar aos pobres.

À medida que o poder virtual de manipular a realidade aumentava, seu amor pelos despossuídos ilimitava-se exponencialmente. Tudo crescia. Fronteiras iam se apagando. Finalmente, velhas utopias erigiam o novo mundo sem distinções, unido na fraternidade e pelo amor universal.

Todas as contas correntes e aplicações em todos os bancos brasileiros amanheceram no primeiro dia de 2014 com exatos R$2.014,00 como saldo. As posições anteriores, definitivamente apagadas dos HDs das instituições, não poderiam ser recuperadas com facilidade.

Próxima etapa, a versão 2.0 para atacar os bancos internacionais, que contaria com a colaboração de colegas em outros continentes.

Por enquanto, tudo que Redtooth tem são algumas linhas de código e uma excitação monstruosa com a revolução que o futuro promete aos menos favorecidos. Feios, sujos e mal-amados, entrevados na ignorância e no esquecimento dos perdedores.

Luís Carlos P., 17 anos, brasileiro, solteiro, técnico em informática com habilidades especiais em programação, acredita que o sol, virtualmente, nasceu para todos.