Natalino

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Espero que você enlouqueça no Natal. Não da loucura que traz sofrimento, mas de uma alienação saudável e necessária em uma data tão deprimente (as altas taxas de suicídio estão aí para comprovar). Nada mais desnecessário e pernicioso que a hipocrisia cristã.

À culpa pela ausência do esperado presente, junto ao sorriso estúpido de satisfação-por-estar-aqui-com-vocês, compense gargalhando ao pé da árvore arcada de bolas e pedidos até cair de joelhos, tomado pelo espírito do Natal, fazendo com que rompa a risadaria ― mesmo que nervosa ― pelo seu gargalhar de louco.

Vá além, rolando pelo chão como presente de espanto às boas tias que vieram de tão longe e a cada ano entendem menos as coisas e gentes deste planeta cada vez mais estapafúrdio.

Para aguçar a dúvida pela sua sanidade e aumentar a alegria geral, distribua algum dinheiro (xerocado), faça o quadradinho de oito e simule a dança da garrafa com um litrão de coca ao som da versão de Jingle Bells do Obama para destacar o caráter colonizado desta comemoração odiosa. Use verde e amarelo, ressaltando a total ausência de reverência às tradições verde-vermelho-e-brancas coladas à data pelo departamento de marketing da The Coca-Cola Company, além de havaianas (é melhor descalço) e bermudas, porque nos trópicos não costuma nevar nessa noite e estas são eternas tendências de verão. Uma coisa Brasil.

Coma com a mão, repartindo o panetone à maneira que, dizem, fazia o aniversariante célebre ao distribuir o pão entre os irmãos (se estranharem, esse é o melhor argumento).

Feeling too bold? Derreta uns ácidos lisérgicos no ponche natalino (nunca antes de checar se alguém ali toma algum medicamento, o que poderia ser fatal) e conduza todos a uma viagem verdadeiramente inesquecível.

Espero que você seja mais você e enlouqueça. Que pisque com as luzinhas da incoerência que é essa esperança por um futuro de maior compreensão, sinceridade, afeto, princípios éticos etc. que todos carregamos à revelia da razão.

Assim louco, risonho, franco, dopado pela alegria, escancare as janelas da casa e grite alto, em tom de desespero punk para quem passar na rua que o homem é bom! O homem é bom! O homem é boooooom! Só é feliz quem goza e compartilha (assim afirmam os gurus destes ruidosos tempos de solilóquios em rede).

À meia-noite dessa noite tão feliz, berre a plenos pulmões aos seus e à vizinhança os mais viscerais votos de FELIZ NATAL.

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