Ella

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Passei a noite no desespero, batendo calçada atrás dela. Parece que meu destino é seguir o vapor, as pegadas de perfume que ela deixa escada abaixo.

O que eu sei é que as dúvidas vão se acumulando, acumulando, tem hora que não sei mais onde sou eu e onde ela começa. Então me derreto, misturo tudo que encontro. Uso seu xampu, as calcinhas, me entupo do seu doce preferido até virar parte dela. Pensar como ela pensa, agir como ela agiria. Tento adivinhar onde estaria a essa hora da madrugada.

Ontem passei ouvindo a voz na caixa postal. Ligava de hora em hora só pra ouvir que viajou mas volta. Tô arrasada. Não. Não quero voltar pra casa, tenho medo do que vou encontrar lá. Tenho medo de ver o que fiz com ela. Não aguento. Não quero me ver de frente naquele espelho enorme na hora em que abrir a porta.

Será que ela morreu dessa vez? Será que eu exagerei? Ciúme é prova de amor? É normal? Será que ela vai me castigar pelo que eu fiz? E se eu for me juntar a ela e ela não me quiser mais?

Mesmo agora, sendo ela, sabendo que ela sou eu e que eu é que nunca existi, não encontro resposta. Melhor voltar pra casa mesmo, pra junto do corpo dela que deve estar sofrendo, revirando lá na cama, me esperando para poder se vestir e sair. Assim como eu, ela sempre quis ser livre. A gente pensava tanto nisso. Poder trocar de nome, de cidade, de signo.

Que luz é essa vindo do quarto? Ai, agora é que lembrei que deixei a janela aberta… cadê ela? Cadê? Ai, meu deus do céu, será que ela pulou?! Como ela conseguiu se desamarrar?