Robocop

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Suas orelhas queimavam enquanto fixava o chão do jardim suspenso. Devia estar contando as pedrinhas. De que outra forma conseguiria se manter naquele estado de calma sabendo o que ia acontecer?

Tive pena. Aquela forma primitiva de vida não tinha culpa pela sua natureza.

― Toma cuidado com o que cê vai fazer.

Não se mexeu. Continuava olhando pra baixo. Em sua testa, as atrocidades correndo o cérebro desde a infância grosseira. Meu dedo engatilhado, a debilidade crescente. Forma inferior de vida, forma inferior de vida, forma inferior…

Era demais pra mim. Não me sentia confortável fazia tempo. Detestava saber o que as pessoas pensavam. Era demais pra mim. Meu peito rasgando de dor. Só as máquinas não têm compaixão. Minha porção humana ainda dominava. Era demais pra mim.

De repente, ele pulou. Não em mim. Em sentido contrário. Do décimo-quinto andar, esborrachou-se no concreto autorreconstituinte, condenado antes do veredicto. De novo, voltei pra casa revirado.

No dia seguinte, quem pulou fui eu. Não tive a mesma sorte dele, mas me livrei de boa parte do meu naco de humanidade.

Queriam me aposentar lá na polícia, preferi continuar. Não sinto mais nada mesmo. Agora é fácil cumprir meu papel.