Solitude

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Tinha o cuzinho apertado, era preciso muito jeito para entrar em Paulinho. Mas quando os olhos cinzentos rasgados passavam do sofrimento ao êxtase, eu alucinava. Paulinho era tudo de bom.

Nos conhecemos numa balada de finde, numa praia do litoral norte. Ele perdido na areia, assustado com a imensidão do mar, o céu chapado de estrelas. Levei pra casa. Dezenove anos é uma idade linda.

Colhi Paulinho em botão, prestes a desabrochar, no auge de uma primavera quente e seca. Gatinho manhoso, adorava leite. Nossa história durou uma semana, o ciclo completo de uma paixão de brinquedo. Felino, no pós-coito de domingo à tarde me esperou dormir e saiu de mansinho. Nunca mais voltou.

Foi a melhor semana do ano. Inventei uma gripe que me derrubou pra faltar alguns dias do trabalho (na verdade, só trabalhei na sexta) e fiquei de cama com Paulinho, livre das aulas do cursinho, entregue ao intensivão das explorações anatômicas. O crânio que eu cobria de beijos carregava formação clássica, de filosofia a latim. Bom de papo, desenhava bem, tocava piano e arriscava umas rimas meio pobres, mas inventivas. Libriano com ascendente em câncer. Loucura. Paulinho era pra casar.

Terça-feira topei com Álvaro no Grindr. Diferente. Circunspeto. Reservado. Entrei nele com facilidade, mesmo com pouca lubrificação. Tem um jogo de cu que é coisa de profissional. De pouca fala, sorri quando concorda. Óculos de aro de tartaruga. Quartoanista de medicina. Mancha marrom na cabeça do robalo. Pés enormes e assustadores. Quer me ver de novo.

Anteontem, Luís Marcelo foi as bolas da vez. E que bolas! Uma manga coração de boi onde repousa o cajado majestoso. Esportista. Lutador de jiu-jitsu com pinta de espartano, é personal lá na minha academia. Diz que é bom em campo. Vibramos juntos num Brasil e Argentina. Foi meu dia de chupar sorvete. Seu forte, é lógico, as coxas. Sábado tem jogo outra vez.

Zé Flávio eu conheci segunda à noite, quando entrei no boteco a caminho de casa pra comprar cigarro e resolvi tomar uma gelada. Os olhos azuis nervosos, inflamados pela cocaína que senti exalar do hálito quando se aproximou de mim no balcão de fórmica gasta, acenderam meu sensor de roubadas junto com a fissura de meter por ali mesmo. Queria me comer. Não rolou. Acabamos na punheta mútua no banheirinho fedido dos fundos. Trocamos telefone. Já apaguei da memória.

Hoje, depois que o Adalberto saiu, abri uma latinha e fui até a janela da sala olhar a rua. Aquele nariz, aquela voz… Moro no nono andar. Acho que estou apaixonado.