Desmanche

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Diariamente afundar em papéis, reuniões, fechar negócios, tentar me livrar da impressão ruim que se repete desde que tudo aconteceu. O gestor de qualidade corporativa ali na frente comandando a ciranda de clichês motivacionais, a cada clique no powerpoint manda um Inovadores São Aqueles Que Não Cansam De Se Reinventar. Anoto a frase num canto do caderninho, pode ter utilidade.

Já estamos no meio de 2006, mas parece que foi ontem.

Foi num verão que se perdeu no tempo, que sentei no banco ao seu lado e disse tudo que sempre revirava em mim nas poucas vezes em que a gente se reencontrou. Acelerou a Parati olhando fixo pro asfalto, aumentou o rádio. Ele morava na capital, vinha pouco pro interior. Estava ficando rico. Mexia com engenharia, não lembro direito com que parte.

Pra que construir alguma coisa se no fim vem um trator e esmaga tudo? O Antigo, O Que Ficou Pra Trás, Tem Que Dar Lugar Ao Novo, Gente! Toda cidade é um palimpsesto, ele me disse com uma latinha de coca na mão contra o sol que se punha no final da rua, só um cachorro triste deitado lá no meio. Nessa época, ele ainda não tinha carro nem os pés-de-galinha em volta dos olhos. Eu ainda nem imaginava nada, pedalava a bicicleta que tinha sido do meu avô. Todo domingo de tarde a gente saía da cidade e só voltava no começo da noite. Anotei a palavra pra procurar no dicionário da escola.

Vocês Têm Ideia Do Tamanho Desse Mercado Como Um Todo? Do Volume De Recursos Que O Governo Vai Estar Injetando Na Economia Para Que Cada Cidadão Possa Conseguir Adquirir A Sua Casa Própria, Gente? 

Meia dúzia de meias mentiras depois e tudo ficou por isso mesmo. Estacionou. Me mandou descer. Tantos anos e a cena foi quase a mesma, só que com chuva. Me deixou em casa entre alívio e abestalhamento. Eu contei que tinha enterrado o umbigo do menino junto com a calcinha da primeira vez num lugar que não me lembrava mais exatamente aonde, mas que lá no fundo da minha memória cada detalhe daquele dia ainda se mexia, o dedão do pé, o saco, o jeito que ele espremia os olhos quando ria, ainda sem nenhum pé-de-galinha. Eu não queria dinheiro, não queria nada, só que soubesse do menino, só isso. O menino tinha sido muito inteligente, parecia tanto com ele. Também não sabia nadar.

No começo da noite, voltou pra me visitar. Sabia que, agora que minha mãe tinha morrido, eu morava sozinha. Queria detalhes. Acho que tinha bebido um pouco. Comecei por aquele domingo. O silêncio no meio da estrada vazia. O caminho que passava pelos bambus. O barulho do rio que ia crescendo. Tudo igual. Tudo repetido. Perto do mesmo lugar onde ele tinha sido gerado, quase na mesma margem.

Tinham encontrado a bicicleta que foi reconhecida porque não existia nenhuma outra igual na cidade. O corpo tava inchado como o dele ficaria no dia seguinte, quando o enterrei atrás da mangueira alta. Foi sem querer. Depois que ele começou a me xingar e a me bater, me defendi com um facão que peguei do escorredor de prato. Aconteceu. Fiquei cega de raiva. Todo aquele amor guardado virou ódio de repente. Fiquei cega. Ninguém nunca levantou a mão pra mim. Difícil foi sumir com a caminhonete depois, lá na represa. Ainda bem que chovia fazia mais de uma semana.

Eu queria sair daquela cidade quando decidi vender a casa, só que tudo veio junto na mudança. Nem imaginava que fosse chegar tão longe. Como a gente consegue carregar essas coisas tão pesadas? Que força é essa que a gente não sabe que tem? 

Enquanto a Bolha Especulativa Ameaça Estourar Lá No Mercado Imobiliário Norte-Americano, Aqui No Brasil A Gente Vive Um Momento Muito Otimista, De Expansão. É Pra Frente Que A Gente Deve Olhar Se Quiser, Enquanto Empresa, Continuar A Crescer E Enterrar A Concorrência!