Aquecimento Global

Imagem

A luz irretocável de um dia perfeito. Temperatura e raios ultravioleta em alta. Efeito estufa. A camiseta não me cai mais direito. Na rua, a menina bonita me mede de cima a baixo; ao seu namorado, eu.

A placa na fachada do show-room exige: Preserve a Natureza. Não ensina como.

― Alguém vai inventar uma máquina que recicla o meio ambiente, você vai ver. E me sorri com aqueles dentes todos, sem caber muito em si. Num dia como esse seria fácil inspirar a invenção. Mas em dias assim não se deve estragar tudo com pensamentos, me basta estar ali.

― Antes, vai morrer muita gente. Terremotos, secas, pandemias (Tânatos não me deixa esquecer de fazer o número do arauto). Por enquanto, apenas marketing do apocalipse. Demagogia e nenhuma ação concreta. Até a imprensa marrom tá toda verde.

Mudamos de rua, de faixa, cidade e assunto. A estrada, cenário de filme. O céu me enche de esperança. Contentamento inflacionado e inflacionário. O ar, pura felicidade em suspensão, ainda que resvalemos os limites do possível.

― Quando eu tinha 17, sabia tudo. Não esquentava. Agora, esqueci as respostas.

Eu, as questões. É só um jogo, passatempo em que ele coloca peso de concurso. Só me importa ver o rio. E eu vejo. Depois entro nele.

― Você recicla? Não sou nem amiga de quem não recicla.

Água, água, água. Ora morna, ora fria. Outro mergulho. Amanhã já é quarta, ainda vou estar por aqui com os homens-peixe no aquário gigante. À noite, sorvete de cereja, cobertura de chocolate, tudo melado. Os beijos vão indo com o vento e desaparer com a lembrança dessa tarde de sonho (mas o mundo e a gente e todo o resto não é transitório?). O calor não dá um tempo. E vai ficar pior.