Death Jockey

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Vou para a vida sem fim que a morte é
Repousar minhas queixa e dúvidas transatlânticas no silêncio marinho, entre restos e tesouros
E toda dor se dissolverá em sal
E meu sangue cessará de correr humilhado
Longe do sol da música, estarei livre
Entre todas as possibilidades do não-ser,
Na batida das vagas, areia a esparramar-se aos pés de uma ilha qualquer

Na sala, sobre a mesa que imperava no minimalismo ambiente, a playlist inacabada. No lugar da última faixa rascunhou um poema-epitáfio. Mania antiga. Adora compor quadras para presentear aos amigos. Cada set inesquecível também ganha um. Em viagem, copia epitáfios que mais gosta dos cemitérios das cidades pelas quais passa, como inspiração. Sua ideia de liberdade é a certeza de que vivemos todos em uma fronteira que pode ser cruzada a qualquer momento. Talvez por ter visto a luz em Tijuana, no dois de novembro, sua vida sempre tenha sido cercada de dança e algazarra. Os poemas-epitáfio estão cada dia mais longos.

Música, maestro!
Música para os corações torturados, entorpecidos em cotidiana imbecilidade.
Dança para espantar maus pensares.
Para almas assustadas, grooves profundos onde se esconder; às vampirizadas, o bate-estaca libertador. Cansados pedem pufes de frequências macias para afundar.
Música para currar corpo e alma.
Música, Maestro, música!
Curando males de uma vida morta, acordar quem foi, entorpecer os que esperam.
Jazer aqui toda tristeza.

O fato é que estava enjoando daquela vida de jet-set DJ. Tocar nos lugares mais distantes do planeta para gente tão distante quanto, começava a ficar cansativo. A idade pesava nos sets. A sucessão de casos, também. Aventuras rápidas e emoções trepidantes não lhe aceleravam mais os BPMs. Tirava mais prazer dos epitáfios e do silêncio sepulcral pós-expediente. Nos últimos dias, uma cigarra cantando sob a janela do quarto o tortura com a platitude do techno orgânico. Insuportável. O inseto dá alguma trégua ao tinido relaxante, depois volta. Tenta veneno e nada. Poderia ser uma alucinação auditiva causada pelo stress sonoro, não seria a primeira vez. Sonhando de olho aberto, deu a noite por encerrada. Tomaria café no aeroporto. Quando o sol estivesse levantando ele já iria longe no céu. Ia tocar em Israel, a ansiedade não permitia que esperasse o voo marcado, tentaria embarcar antes, no primeiro do dia.

Silencia e perceberás cada detalhe do que antes pareciam ruídos sem rosto.

Do outro lado do mundo, a über-model contorcia-se num banheiro de avião. Mesmo depois de abandonada a quimioterapia, a diarreia não cedia. Na fila do check-in já sentia calafrios. Depois, o voo atrasou por causa da confusão armada pelo bando de devotos em excursão à Jerusalém. O primeiro da fila, dezenas de malas, guardou lugar para os retardatários. Ungidos pelo divino, iam passando na frente dos outros na medida em que chegavam. Forçada à reflexão sanitária, lembrava como andava cheia de ser fotografada, escaneada, revirada em todos os ângulos da beleza afro-brasileira. Todo sofrimento tinha limite.

Mergulho na escuridão sem adjetivos
Salto substantivos, cremo etapas
A fome não faz o poeta
A beleza do verbo não é salvação
Entrego-me, dessignifico-me
Alma sem pele, nem os ossos restarão

Talvez, sucumbisse logo, talvez não. O certo é que queria muita música, dançaria a noite inteira, linda, movida por todas as forças orgânicas e sintéticas que conseguisse. A festa de final de ano da agência sempre acontecia em um lugar inusitado do planeta. Alegria à granel, por toda parte alta celebração. De manhã, a via-crúcis na cidade sagrada, arrastando os ossos doentes até seu limite. Rezaria, pediria a Deus que a perdoasse e seguiria com seu DJ favorito para o chill-out final. Voltaria ao pó original e à Bahia numa caixinha. Baiana em pó. Podiam tomar tudo dela, o senso de humor, jamais.

Quando a morte bater à porta,
Abra e a convide para um café.
Quem sabe na vida dela também tenha existido alguém
Que a esperava mecanicamente para o jantar e,
Surpreendido por um sopro de vida,
Saiu andando para nunca mais voltar?

Entregou o adoçante que ela deveria misturar ao chá, a receita asteca não deixava resquícios nem fazia sofrer, o mundo iria desligando devagar. Ainda tocaria num clube antes de tomar o avião de volta. Por consideração ao cliente que o havia contratado obrigava-se a comparecer pelo menos alguns minutos ao velório itinerante. Nunca sabia o que fazer neles, preferia os cemitérios vazios. No hotel, enquanto anoitecia, deixou-se abandonar na cama fumando um cigarro atrás do outro até que só a luminosidade tíbia da brasa fosse a única fonte de luz.

A luz de algumas pessoas é como a de certas estrelas
Que descobrimos quando já não existem mais.