Subsampa

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No dia de seu aniversário, a cidade acordou ressecada. Depois de um longo período de rodízio no fornecimento de água por causa da estiagem prolongada, o sistema de esgoto, abarrotado com o papel higiênico lançado nas privadas pela população, fora entupido com a massa que formou uma espécie de papier-mâché, misto de fezes com cadáveres de insetos, roedores e assemelhados.

Os intestinos da metrópole não funcionavam mais direito. A coisa começou a feder.

O engenheiro sanitário Wanderley Castanho, o W.C., no ócio compulsório do desemprego teve uma ideia que mesmo arriscada poderia reverter a situação e, de quebra, render fama e fortuna.

Com o fornecimento de água voltando à normalidade todos os cidadãos seriam convocados ao descargaço, quando cada privada do município seria disparada ao mesmo tempo — exatamente às nove horas da manhã de domingo —, durante 1 minuto. Nesse período breve seria acrescentada a soda cáustica fornecida pela administração pública (uma colher a cada 15 segundos). A pressão resultante, se não arrebentasse de vez o sistema, dissolveria os dejetos sólidos expulsando-os em forma pastosa.

Vários pontos de despressurização deveriam ser criados ao longo da rede para aliviar a pressão resultante, isso seria feito em áreas de parques públicos, terrenos baldios etc., onde caminhões da prefeitura estariam a postos para a coleta da pasta.

Wanderley procurou a prefeitura e apresentou o projeto organizado em conjunto com mais três ex-colegas da construtora falida onde trabalhara: um projetista, a digitadora e o calculista.

Os técnicos sanitários da prefeitura, desesperados por uma solução, mesmo surpresos com a bizarria e os riscos da proposta prometeram estudá-la submetendo-a ao ex-prefeito — agora prefeita, pois mudara de sexo cirurgicamente e estava em licença temporária, recuperando-se.

Exímia estrategista, a prefeita amou o projeto e teve uma iluminação complementar: ocultaria pontos de despressurização sob comitês e residências de desafetos políticos. Vingança tola, ela sabia, comportamento típico de homem, gênero ao qual já não pertencia, mas sentia vontade de fazer cocô quando imaginava a cena.

Aprovada pela câmara em sessão extraordinária, o descargaço foi adotado com simpatia pela população, que colaborou alegre, tomando-o como ritual de descarrego coletivo.

A iniciativa privada patrocinou parte da distribuição da química desentupidora, conseguindo negociar a outra parte com a prefeitura, com o perdão de dívidas com impostos atrasados. Isto tirou do buraco a empresa fabricante de uma marca de soda cáustica com passado de glória no mercado, propriedade de um tio-avô do engenheiro sanitário.

A tarefa foi um sucesso absoluto. A cidade desenfezava-se.

W.C. e sua equipe enriqueceriam prestando consultoria a órgãos da administração pública de cidades América Latina afora, cujos projetos sanitários de maior porte empacavam, emaranhados em soluções de alta complexidade.

Na noite do dia do desentupimento, a prefeita engasgou com um pedaço de pizza enquanto assistia pela TV às cenas do ex-governador, inimigo figadal, sendo retirado de seu comitê de reeleição inundado pelos dejetos. Às gargalhadas, ouvia um dos entrevistados contar que tinha merda até no ventilador de teto.

No dia seguinte, os jornais estampavam a foto da fachada do comitê de reeleição na qual o slogan de campanha ― ELE FEZ ―, pintado em vermelho, recebeu de um pichador anônimo as letras ES como complemento.