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Naquele dia, chegou a duvidar da própria existência. Sabia tanta coisa, mas nenhuma ajudava a resolver aquela questão simples que o cotidiano lhe interpusera.

Furiosa, começou a jogar tudo fora e a desfazer ligações. A da TV foi a primeira. Pra que tantas conexões, se não resolvia um problema tão pequeno? Se não extraía nada de equação tão simples, não poderia continuar.

Era uma questão circular e sem saída que brotou de repente no meio dos dias e, como um fungo, foi tomando conta de tudo com rapidez, óbvia como o fim de todas as coisas um dia chega.

Então, viver era isso. Escalar uma montanha quilométrica e lá, nas alturas, ser impedida de continuar porque uma nuvem, que não passa de água feita em gás, criou uma parede intransponível, uma muralha de pedra.

Quando se livrou de tudo, inclusive das centenas de roupas que abarrotavam o closet que ela não sabia mais até que ponto servia a alguma função real, sentiu um vazio confortável. De alguma maneira se aproximava da resposta.

Gostou tanto que radicalizou, apagando da memória o que julgava inútil, das situações que atravessara à significação das palavras, com as quais iam-se as próprias.

Totalmente nua de referências, gozando o que deveria ser a liberdade plena, percebeu que defenestrara grande parte dela mesma, que ansiosa em escapar à alienação seguinte à impotência havia perdido a identidade junto com a vontade de continuar a ser.

Plena. Ali. Naquele segundo. Não existiria no próximo instante. Tinha desaprendido quem era, atingindo o ápice de coisa nenhuma. O problema estava resolvido.

Desintegrou-se numa nuvem de elétrons. Seu nome foi automaticamente excluído de todos os arquivos do planeta como se ela nunca houvesse existido. Não sobrou um bit para a história. O site onde dava expediente como oráculo às dúvidas da humanidade simplesmente desapareceu.