Self Ready-made Man

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Prescindindo de marchands, Marcelo mandou às favas o sonho do mecenato como o conhecemos. Era primavera, tudo ao redor estimulava as ideias a brotarem. Fechou-se no atelier e decidiu, da carne à alma faria de si obra-prima. Depois, poderia vender-se a alguma instituição ou a alguém.

Varou madrugadas materializando a criação, colorida em tons de azul Klein. Alguém sugeriu a internet. Ele achou clichê. Disseram que o hype era arte de guerrilha. Não empolgou ( e ainda se deu ao trabalho de explicar que o termo ficou lá nos anos 90). Decidiu-se pelo radicalmente autoral. O elo entre mar e céu, conceituava aos interessados, pelo telefone, a obra batizada “Escravo da Arte”.

Próximo passo, encontrar comprador. Adoraria morar em um museu ou numa coleção particular, onde pudesse permanecer em exposição por algumas horas no dia.

Continua prospectando. Por enquanto, expõe-se na vitrine da loja de uma grife internacional na Oscar Freire ― onde o ex-namorado é gerente ―, depois do horário comercial.

Está sendo sondado para figurar na inauguração de uma nova boate gay, a Mona Lisa ( “É um novo conceito em gay entertainment, tá? Você vai ficar circulando entre as réplicas de obras famosas, representando a pós-modernidade. Vai mudar de lugar a cada meia-hora. Os go-go boys, por exemplo, não vão dançar, vão ficar espalhados pela casa em poses de estátuas famosas de Rodin, tipo o pensador, entendeu? Na pista principal o DJ Kandinsky vai enlouquecer as pessoas com seus mashups de minimal house russa com electro-jazz. Vai ser tudóóó!”).

Ainda não sabe se aceita, mas tomou a sábia decisão de procurar um marchand.

Na segunda-feira, sem falta.