Refresco (confissão nº 8)

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Encontrei a saída onde menos esperava. Era pagão. Devo muito ao pastor alemão Hans Müller, que conheci em um cruising bar perto de casa faz uns meses. Naquele canto penumbroso e quieto dentro de mim alguma coisa se transformou pra sempre. Foi devagar. Amor a gente não escolhe. Ele chega e toma conta. É obra da mão divina sim.

Desculpa desviar do assunto. Mas, voltando àquele sábado, um par de horas antes, vasculhada a coleção de filmes pornôs e assistido “O Senhor dos Anais”, saí na noite com sede de não sei quê. Não percebi o movimento lá na frente. De concreto, só o viaduto correndo, emoldurado entre as janelas do meu carro. Pensava em coisa soltas, sabe? Sujeito abstraído de quase tudo que sempre fui. Não, senhor. Não havia placa indicando que a via estivesse impedida. Disso eu tenho certeza. Absoluta.

O cheiro do meu sangue na lâmina de barbear foi o começo da nostalgia estranha que me dominou. Me deu vontade de gritar de alegria. Cantar pneus às quatro da manhã. Queria cuspir no chão do hall de entrada do prédio. Eu detesto neoclássico. Odeio. Sou de origem humilde, mas tenho formação. Isso foi antes de ver o filme, certo? Foi na hora do banho.

Dona Letícia Leite, síndica substituta e nutróloga, ai, quanta gordura e proteína!; seu Gerson Severino Rodrigues, bigode amarelo-nicotina lagarteando ao lipsync dos lugares comuns; Adelaidde Chrystinah da Costha, a inseparável sandália de prata e o blablablá numerológico entre um gole e outro num copinho descartável; os três viram quando emergi da garagem. Fofocavam na calçada. Era carnaval, mas eu ouvia drag music.

Sim, seu delegado. Sou funcionário público, o principal responsável pela maquiagem contábil do município. Isso. E também por oferecer as provas de corrupção aos jornalistas. Fui eu quem atropelou a escola de samba Unidos da Alegria. Fui eu quem matou Ana Marlene Watanabe, a nissei globeleza.

Eu sabia que um dia iria cair. Que minha ascensão era um voo de Ícaro, entende? A gente não vale nada mesmo. Nessa terra, você é o padrinho que tem. Tive um caso, muito antigamente, com o atual namorado do prefeito. É. Ele mesmo. O presidente da Câmara dos vereadores. Mas sou concursado, viu?! Não fui colocado lá, não. Posso. Juro. Eu era um menino bonito, um efebo suburbano. Ele nunca gostou de mim. Era só luxúria. Sabe que nem ele nem ninguém, né? Sempre fui uma pessoa sem amor. Ainda bem que agora tenho o carinho do pastor. Ele me traz algum conforto no dia da visita íntima. Gosto das passagens da bíblia na interpretação dele.

Imagina, doutor. Estou à disposição. Quero colaborar. Faço a delação, sim. Tem muita gente que não vai mais dormir sem comprimido. Muita empresa e casamento de fachada que vão cair. Faço questão de contar tudo que eu sei! Tudo! Pode avisar o juiz. Não tem de quê, delegado. Só uma coisa. E fica entre nós, hein? O senhor sabia que ele também é viado?