Bossa Nova

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Um homem pode viver sem amor, sem ilusão não dá. João acende mais um, as caixinhas o seduzem, não se importa se haverá vida pós-morte. Se a dispersão das cinzas ou o enterro dos restos será feito à sua vontade, ele não quer saber. Transcendeu a carne em vida, eternizado ― particularidades e dissonâncias ― em suportes sonoros, de início, analógicos; depois, digitais. Homem fez-se som. Sorte dele. Sorte maior nossa.

Acontece que há poucos anos remasterizaram João. Botaram eco onde não havia, criaram espaços onde apenas a arte do tempo deveria imperar. Recriaram João à sua revelia, o vil metal tilintando mais alto, costume na mixagem dos colonizadores, subverteu registros duma época de ouro que já não se ouve mais, criando sutil travesti sonoro a equilibrar-se sobre o salto alto da coautoria.

João entrou na Justiça; a Justiça, na de João. Mas haverá justiça num país cuja maior característica é reconhecer-se (com júbilo) em sua falta de noção? Imagino seu embrulho no estômago ao ouvir-se ripado num arquivo mp3, a tristeza parecendo não ter fim.

Tudo é impermanência nesse mundo over de ruído branco, João. Sigamos nós a girar, que a existência não exige afinação. Um homem pode viver sem amor, sem ilusão não dá.

Postscriptum A esperança (aquela que não descansa e sempre rima alegria à algaravia) num lance de gênio materializou Daniel no caminho de João.

Post-postscriptum Também um magistrado audiófilo deu sinal de que a arte resiste ainda ao grande capital 

Post-post-postscriptum E a saga continua. Na pátria da televisão e da fofoca, a tristeza parece mesmo não ter fim